Dilma tira crucifixo do gabinete. Falta o resto do país


A Folha de S. Paulo, deste domingo, traz a informação de que a presidenta Dilma Rousseff, em sua primeira semana de trabalho, retirou o crucifixo da parede de seu gabinete e a bíblia de sua mesa.
Helena Chagas, ministra chefe da Secretaria de Comunicação Social, através de seu twitter, contradisse a informação divulgada pela Folha na tarde de hoje – depois deste post já ter sido publicado. Segundo ela, “a presidenta Dilma não tirou o crucifixo da parede de seu gabinete. A peça é do ex-presidente Lula e foi na mudança. Aliás, o crucifixo, que Lula ganhou de um amigo no início do governo, é de origem portuguesa”. Segundo Chagas, a bíblia continua lá, em uma sala contígua, em cima de uma mesa. A mesma informação está em nota da Secom.
A meu ver, a discussão sobre a propriedade do crucifixo é indiferente – se Dilma não repuser a peça. O que importa é a existência de símbolos religiosos no gabinete da Presidência da República e a sua retirada. A Secretaria de Comunicação Social afirma que não foi uma opção dela ter tirado, mas é uma decisão não recolocar outro no lugar. Do jeito que é o Brasil, não fazer nada, mantendo o espaço sem crucifixo, será um ato simbólico surpreendente.
Defendo fortemente que a retirada de símbolos religiosos seja realizado por todos os que ocupam cargos públicos no país. Dilma afirmou ser católica durante as eleições (ok, como disse na época, eu ainda aposto que ela e José Serra são, no limite, agnósticos – mas vá lá), mas não foi eleita para representar apenas cristãos e sim cidadãos de todas as crenças – inclusive os que acreditam em nada.
A questão da retirada de crucifixos, imagens e afins de repartições públicas gerou polêmicas ao longo da história a partir do momento em que um Estado se afirma laico (e não desde o lançamento do 3º Programa Nacional de Direitos Humanos, como querem fazer crer o pessoal do “não li, mas não gostei”). A França retirou os símbolos religiosos de sedes de governos, tribunais e escolas públicas no final do século 19. Nossa primeira Constituição republicana já contemplava a separação entre Estado e Igreja, mas estamos 120 anos atrasados em cumprir a promessas dos legisladores de então.
Em janeiro do ano passado, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil lançou uma nota em que rejeitou “a criação de ‘mecanismos para impeder a ostentação de símbolos religiosos em estabelecimentos públicos da União’, pois considera que tal medida intolerante pretende ignorar nossas raízes históricas”.
Adoro quando alguém apela para as “raízes históricas” para discutir algo. Na época, lembrei que a escravidão está em nossas raízes históricas. A sociedade patriarcal está em nossas raízes históricas. A desigualdade social estrutural está em nossas raízes históricas. A exploração irracional dos recursos naturais está em nossas raízes históricas. A submissão da mulher como reprodutora e objeto sexual está em nossas raízes históricas. As decisões de Estado serem tomadas por meia dúzia de iluminados ignorando a participação popular estão em nossas raízes históricas. Lavar a honra com sangue está em nossas raízes históricas. Caçar índios no mato está em nossas raízes históricas. E isso para falar apenas de Brasil. Até porque queimar pessoas por intolerância de pensamento está nas raízes históricas de muita gente.
Quando o ser humano consegue caminhar a ponto de ver no horizonte a possibilidade de se livrar das amarras de suas “raízes históricas”, obtendo a liberdade para acreditar ou não, fazer ou não fazer, ser o que quiser ser, instituições importantes trazem justificativas fracas como essa, que fariam São Tomás de Aquino corar de vergonha intelectual. Por outro lado, o pessoal ultraconservador tem delírios de alegria.
Em 2009, o Ministério Público do Piauí solicitou a retirada de símbolos religiosos dos prédios públicos, atendendo a uma representação feita por entidades da sociedade civil e o presidente do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro mandou recolher os crucifixos que adornavam o prédio e converteu a capela católica em local de culto ecumênico. Algumas dessas ações têm vida curta, mas o que importa é que percebe-se um processo em defesa de um Estado que proteja e acolha todas as religiões, mas não seja atrelado a nenhuma delas.
É necessário que se retirem adornos e referência religiosas de edifícios públicos, como o Supremo Tribunal Federal e o Congresso Nacional. Não é porque o país tem uma maioria de católicos que espíritas, judeus, muçulmanos, enfim, minorias, precisem aceitar um símbolo cristão em um espaço do Estado. Além disso, as denominações cristãs são parte interessada em várias polêmicas judiciais – de pesquisas com célula-tronco ao direito ao aborto. Se esses elementos estão escancaradamente presentes nos locais onde são tomadas as decisões sem que ninguém se mexa para retirá-las, como garantir que as decisões serão isentas?
Como já disse aqui antes, o Estado deve garantir que todas as religiões tenham liberdade para exercer seus cultos, tenham seus templos, igrejas e terreiros e ostentem seus símbolos (tem uma turma dodói da cabeça que diz que isso significaria a retirada do Cristo Redentor do morro do Corcovado – afe… por Nossa Senhora!). Mas não pode se envolver, positiva ou negativamente, em nenhuma delas. Estado é Estado. Religião é religião.
Como é difícil uma democracia respeitar suas minorias.
Atualizado às 18h30 de 9 de janeiro de 2011

Usa CD pirata? A culpa pelas desgraças do mundo é sua



O Brasil apreendeu 1,6 milhão de CDs piratas em 2010, segundo balanço da Associação Brasileira das Empresas de Software em conjunto com Entertainment Software Associationdivulgados pelo Uol e a Folha.com nesta segunda. Isso representa um crescimento de 42% em relação ao ano anterior. Foram 730 operações em centros comerciais para combater esses artigos – 10% a mais que em 2009. A matéria aponta que a consultoria IDC afirma que a indústria de softwares e serviços pode incorporar cerca de R$ 7 bi nos próximos quatro anos, se reduzir em dez pontos percentuais o índice de pirataria no mercado local – 74% dessa renda iria para a economia nacional, gerando 12 mil novos empregos.
Trago aqui um debate que publiquei anteriormente neste espaço, mas que acho bastante pertinente. De tanto ouvir e ver propagandas em rádios, TVs e cinemas que fazem o consumidor sentir-se um pedaço de lixo, financiador do tráfico de drogas, responsável pelo desemprego e pela fome no mundo, por não se atentar à origem dos CDs e DVDs que compra, creio que se faz necessária uma pergunta: empresas de software, gravadoras e a indústria do entretenimento em geral aplicam o mesmo terror em suas relações comerciais?
Inexiste, por parte de muitas delas, uma política para evitar a compra de equipamentos eletrônicos (utilizados na criação de programas, gravação de músicas, filmagens de películas) que contêm crimes contra a humanidade e o meio ambiente em seu processo de fabricação. As únicas restrições que impõem são: que o produto tenha preço baixo e a qualidade técnica desejada. Enquanto isso, a indústria de aparelhos eletrônicos consome proporções cada vez maiores de minérios preciosos e raros encravados pelo mundo. Muitos desses metais são extraídos em minas de países pobres nas quais trabalhadores, crianças e adultos, enfrentam condições aterradoras. Ou comunidades são removidas para dar mais espaço para a mineração. Fora a contaminação da água e a poluição do solo.
Alguns vão dizer que é ilegal baixar músicas e copiar DVDs, mas comprar de quem escraviza e desmata para a produção de matéria-prima não? A resposta sobre o porquê de o mundo ser assim reside no fato de que, historicamente, as leis criadas para proteger a propriedade e o lucro são mais severas e efetivas do que as que foram implantadas para defender a vida e a dignidade.
Se a indústria da informação e do entretenimento não podem comprovar para o consumidor comum de que o seu processo de produção é social e ambientalmente responsável, como é que eles vão exigir responsabilidade de nós?
E isso não significa doar computadores para orfanatos, informatizar ONGs ou ser simpático ao distribuir softwares gratuitos a instituições de ensino (há várias formas de viciar uma criança, sabia? – mas isso é assunto para outro texto). Também não basta recolher o lixo digital produzido pela obsolescência programada das máquinas desse admirável mundo novo. É preciso mais, muito mais. Chegando ao ponto de discutir o consumismo tresloucado da era digital e aonde vamos todos com esse culto ao gadget (do qual, não nego, sou participantes ativo).
A provocação não é uma apologia à pirataria, mas sim um chamado à responsabilidade. Coisa que anda em falta nos dias de hoje.

Baixa representatividade negra na mídia gera menos oportunidades de trabalho e alimenta o preconceito racial

Low black representation in the media generates less employment opportunities and stimulate racial preconception

Meios de comunicação do país ainda não incorporaram negros – A baixa participação da população negra nas programações e propagandas veiculadas nos grandes meios de comunicação de massa no Brasil podem significar menores oportunidades de trabalho e alimentar um preconceito racial velado no país, aponta estudo realizado na Faculdade de Direito (FD) da USP. Para o pesquisador Osmar Teixeira Gaspar, responsável pelo trabalho, “ter visibilidade acarreta algumas possibilidades ao longo da vida e a falta dela também pode criar um ideário popular de que determinadas funções devem ser ocupadas por determinados esteriótipos”.
Segundo o pesquisador todo material publicitário atualmente ainda é feito com um recorte racial, assim como algumas telenovelas. “Você raramente vê algum médico ou cientista negro nas telenovelas, isso faz um garoto negro pensar que, devido à sua cor, jamais poderá participar daquele universo branco e exercer aquelas funções. Esta censura midiática desperdiça e marginaliza talentos”, afirma Gaspar. “Isso não incentiva negros a almejar determinadas profissões.”
Com isso, o estudo de mestrado desenvolvido por Gaspar busca traçar como o conteúdo dos veículos de comunicação de massa e seus personagens fatalmente refletem no mercado de trabalho, por meio da análise das telenovelas das emissoras Globo, SBT e Record, no período de 2005 a 2010, e de revistas impressas. “Nas peças publicitárias ou nos comerciais de televisão, os elementos negros ou estão no fundo da cena ou não tem voz”, relata o pesquisador.
O estudo examinou algumas revistas impressas brasileiras – como Elle, Sou+Eu, Manequim, Claudia, Vogue Brasil, TPM entre outras – e apontou que as mulheres brancas aparecem nessas publicações 94,08% das vezes contra apenas 6,081% das mulheres negras. De acordo com o pesquisador, isso é um dos exemplos de como a ausência ou a discriminação da população negra nos veículos de massa refletem nas oportunidades profissionais. “As agências publicitárias pouco fazem uso de modelos afrodescendentes, o que não é justificável, pois as classes C e D do Brasil, onde se encontram a maioria da população negra, são um grande mercado consumidor”, infere Gaspar.
Representatividade
Após anos de escravidão e influências europeias sob território tupiniquim, a ausência das populações negras nos palcos decisórios, de debate e de poder na sociedade brasileira se tornou algo natural, defende o pesquisador. “Parte dos próprios negros se acostumaram com sua ausência e naturalizaram a ideia”, afirma.
Segundo o pesquisador, um veículo de comunicação de massa participa das decisões e dos processos de construção de uma sociedade. Por isso, um veículo de massa traz poder às pessoas que o possuem ou que fazem parte de sua programação e “atualmente, não há interesse que a população negra alcance esse poder e tenha voz para fomentar seus avanços sociais”.
Por fim, Gaspar ressalta que deve-se apenas defender a Constituição Federal. “Nossa Constituição não hierarquiza e tampouco admite qualquer tipo de censura aos brasileiros em razão de seu fenótipo. Ao contrário, ela lhes assegura o direito de gozarem das mesmas oportunidades, representatividade e visibilidade”, diz.
Contudo, segundo o pesquisador, é necessário que o Estado brasileiro implemente políticas públicas que efetivamente democratizem e assegurarem o acesso e a inserção desta população negra aos meios de comunicação de massa, de forma proporcional à sua representatividade dentro da sociedade brasileira. “Entendo que a televisão comercial deve ser lucrativa, mas por outro lado, não se pode desvalorizar o ser humano. A TV deve e pode investir em uma grade de programação plural que aborde diversos aspectos culturais do Brasil e das etnias que compõem nossa sociedade”, conclui.
Reportagem de Marcelo Pellegrini, da Agência USP de Notícias, publicada pelo EcoDebate, 07/01/2011
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Os desafios de Dilma


Tradução: ADITAL
A primeira tarefa que Dilma Rousseff enfrenta como presidente do Brasil é ao mesmo tempo simples e complicada: deixar claro que é ela quem está à frente e não Luis Inácio Lula da Silva, seu predecessor e mentor político. Porque Dilma deve o posto à audaz decisão de Lula de converter em candidata à sua pouco conhecida chefe de gabinete, a quem assegurou as eleições graças à sua popularidade e à sua infatigável campanha. Essa dívida fica de manifesto na composição de seu novo gabinete: 16 de seus 37 ministros serviram nos governos de Lula. De forma que Dilma está oferecendo continuidade, que, de fato, é pelo que votaram os brasileiros.
A nova presidente comprometeu-se em, durante os próximos quatro anos, eliminar a extrema pobreza que ainda atinge a 9% dos brasileiros. Também aposta em melhorar a qualidade da atenção sanitária e da educação. Deve garantir um investimento urgente em aeroportos e outras infraestruturas de transporte ante a Copa do Mundo em 2014. E terá que corrigir distorções geradas pelo incipiente boom petroleiro do Brasil. A distorção mais urgente a ser corrigida é a força do real, que desatou os temores a uma desindustrialização.
O paradoxo que Dilma enfrenta é que consolidar e dar continuidade ao impressionante desenvolvimento do Brasil exige fazer mudanças e impor sua própria autoridade, em vez de depender de Lula. Ela herda uma economia que está reaquecendo-se: o crescimento próximo a 7,5%, em 2010 provocou um aumento vertiginoso das importações e da inflação (até 5,6%). Em seu segundo mandato, Lula gastou muito mais do que no primeiro: o déficit fiscal do Brasil, de 3% do PIB, pode resultar pequeno para padrões europeus; porém, é demasiado alto para uma economia em auge e afugente o investimento tanto público quanto privado. Isso significa que a política monetária deve encarregar-se de manter a inflação baixa. O resultado são as altas taxas de juros, que em troca elevam o valor do real.

Dilma deixou claro, desde que ganhou as eleições, que o Brasil necessita de um ajuste fiscal e de um Estado mais eficiente. A questão é se atuará rápido o suficiente: alguns de seus assessores creem que o crescimento permitirá ao governo curar suas enfermidades fiscais de forma gradual.

Porém, esse ritmo mais gradual tem riscos. Converte o Brasil em refém da incerta economia mundial, vulnerável a um ajuste repentino. E deixa o governo de Dilma à mercê de um Congresso voraz. Se um presidente brasileiro não exerce uma vigilância constante, os políticos encontram milhares de fórmulas para aumentar o gasto, principalmente em partidas que favorecem aos privilegiados, não aos pobres. O último exemplo: o Congresso cujo mandato terminou acaba de adjudicar-se um enorme aumento salarial, que se for aplicado a todos os níveis do governo suporá 2.200 milhões de reais ao ano, mais do que o Programa Bolsa Família contra a pobreza.

Dilma é uma mulher dura e competente, que cumpre suas tarefas. Será uma administradora eficaz do Estado brasileiro. Fica por ver-se se terá o desejo e a habilidade política de reformá-lo.
[Autor de El Continente Olvidado (Ediciones Belaqva)].

* Editor para América Latina de The Economist

TRANSPOSIÇÃO DO SÃO FRANCISCO - Por Manoel Bomfim Ribeiro

Açude do Castanhão - CE. Foto Almacks Luiz

Salvador, 29 de novembro de 2010
 Ao escritor Antonio Risério

        Permita-me comentar  o seu artigo  SOBRE O VELHO CHICO publicado  no jornal A TARDE  de sábado, dia 27 deste.
       Você está certíssimo  sobre o nome “ Rio de São Francisco,” título que encima o livro histórico de Geraldo Rocha, obra prima sobre o grande rio.
        Sobre a barragem do Sobradinho e Xingó e o aproveitamento energético de Paulo Afonso  estamos acordes.
        Nosso comentário prende-se  a mega Transposição de águas do rio para o Semi-Árido brasileiro. Entendi, no seu artigo,  que as reações  do momento  transformar-se-ão  em apoio futuro quando executada  a obra, como fora o comportamento dos ribeirinhos com  a transferência das cidades.
       A construção das obras  da transposição oferece aspectos diferentes, senão vejamos: no ano de 1820 D. João VI  teve a idéia de abrir um canal  do rio São Francisco para o rio Jaguaribe,  isto porque a rede potamográfica do Nordeste, apesar de bem distribuída, era e é intermitente, ficando os leitos dessecados logo após as chuvas do período, devido à evaporação descomunal que se abate sobre o Nordeste. Chega a 3.000 mm/ano, ou seja, uma coluna líquida de  3 metros  de água sobe pelos ares anualmente.
      O nordestino, com sua inventiva, tangido pela necessidade de sobrevivência, construiu  pequenos barramentos, bastante primitivos, mas que retinham a água por um tempo maior. A idéia foi sendo imitada, todo mundo fazia as suas pequenas aguadas. A coisa evoluiu, as técnicas foram avançando e o baronato rural começou a executar açudes de médio porte  que já suportavam  as travessias dos períodos estivais.
      Os engenheiros nordestinos  se aprimoraram em projetos ousados e, no século XX, se tornaram os melhores hidrólogos do mundo  nas técnicas da construção de açudes. Houve uma grande nucleação  na construção destas obras e chegamos,  ao alvorecer do século XXI, com mais de 70.000 mil açudes nos quatro estados Ceará. Rio G. do Norte, Paraíba e Pernambuco armazenando 40 bilhões de metros cúbicos de água, volume equivalente a 16 vezes a baia da Guanabara.
       Existem cerca de 20.000 açudes  de construção primorosa, são reservatórios  que não secam jamais, com 20, 30, 40, ou mais metros de profundidade, suportando as grandes secas  que ocorrem.  
       Temos, assim,  a maior rede de açudes  do planeta Terra em regiões áridas e semi-áridas do mundo, mas a idéia da Transposição ficou implantada na cabeça de grupos, sobretudo de alguns políticos.
        Saiba, portanto, prezado Rizério, que o Semi-Árido brasileiro armazena água muito além das suas necessidades.
      O  subsolo do Nordeste dispõe, também, de 135 bilhões de m³ de água acumulados, podendo ser extraídos cerca de  27 bilhões por ano sem baixar os seus aqüíferos. 
      A Transposição, obra ciclópica que vai engolir mais de 16 bilhões de reais, se um dia for concluída,  vai transportar inicialmente 26 m³/s, ou seja, 400 milhões de m³/ano, volume igual a um açude médio dos milhares que existem na região. No pico, pode transportar até 127 m³/s ou seja 2 bilhões por ano, volume  igual à evaporação de um só açude,  o Castanhão, que evapora exatamente 2 bilhões  dos 6,7 bilhões que armazena. Este é o maior açude do mundo em rios intermitentes que,  irá receber água da Transposição. Uma irrisão. Os dois canais (Norte e Leste) vão levar   os 2 bilhões de água para 8 açudes que já acumulam 13 bilhões  que, por sua vez, evaporam 4 bilhões. Chegam 2 bi onde evaporam 4 bi. Entenda.
     Observe,  40 bi não resolveram o problema de água da região, mas  2 bi (5%) vão resolver, diz o Governo.
       O que faltam nos nossos açudes é a distribuição através de um robusto sistema de adutoras. Existem apenas 4.000 km de adutoras principais. Necessitamos de 40.000 km para as águas dos nossos açudes viajarem  por todos os cantos e recantos do Semi-Árido.
       Meu caro, esta é uma análise cartesiana, bem resumida e verdadeira. Venho blaterando,  eu e um  grupo de técnicos, contra este crime de lesa-pátria que o Governo comete  contra a sociedade apática do nosso País.
       Existem no Nordeste brasileiro 38 obras  do Governo  inconclusas e abandonadas. Esta será mais uma, cujos escombros em concreto ficarão expostos e eternizados á flor da terra, atestando a incúria e a irresponsabilidade criminosa de um Governo. Servirá, apenas, como uma análise a ser feita  pelos nossos pósteros.
 Estamos á sua disposição para uma exposição pessoal , para uma palestra ou o que você quiser sobre este tema.
   Atenciosamente
                        Manoel Bomfim Ribeiro

"Rio será inacreditável em 15 anos", diz Eike Batista a jornal britânico

O homem mais rico do Brasil, o empresário Eike Batista, tem como um de seus dois principais objetivos transformar o Rio de Janeiro em "um dos lugares mais dinâmicos e ricos do mundo", segundo afirma em uma entrevista publicada nesta segunda-feira pelo diário britânico The Guardian. 

O outro objetivo de Batista é se tornar o homem mais rico do mundo. Atualmente ele ocupa o 8º lugar na lista da revista Forbes. O jornal observa que a holding EBX, controlada pelo empresário, pretende investir R$ 34 bilhões no Rio nos próximos dois anos, construindo portos, fábricas e procurando petróleo.

"Se eu olhar para o Rio daqui a 10, 15 anos, será inacreditável", afirmou ele ao jornal. Para ele, a cidade será “uma mistura de Califórnia, Nova York e Houston, combinando praias estonteantes com importância financeira e arquitetura ultramoderna".

O jornal relata o projeto de Batista para a construção da "Cidade X", uma "cidade digital supermoderna para cerca de 250 mil pessoas", erguida a partir do nada a cerca de 240 quilômetros do Rio de Janeiro. Para a capital, os projetos de Batista incluem a limpeza da lagoa Rodrigo de Freitas, o estabelecimento de um cruzeiro de luxo para turistas, a recuperação da marina da cidade e a restauração do Hotel Glória.

O Guardian observa ainda que, como patrocinador da candidatura do Rio pela organização da Olimpíada de 2016, ele doou mais de R$ 15 milhões para a campanha e também mais R$ 100 milhões para ajudar a financiar as Unidades de Polícia Pacificadora (UPP) nas favelas cariocas. 

"A maioria dos ricos brasileiros vive 90% de seu tempo no Brasil, mas guarda dinheiro para comprar algo em Nova York, ou Miami ou Londres ou Paris”, disse ele ao jornal. "Seus filhos às vezes precisam viajar em carros blindados. Vamos mudar isso. Aqui é o paraíso", afirmou. 

Extravagância 

Segundo o jornal, a "extravagância" de Batista é uma exceção num país como o Brasil, com grandes diferenças entre os ricos e os pobres e onde os mais abastados preferem se manter discretos. O empresário diz que “a única maneira de mudar as coisas no Brasil” é as pessoas mostrarem o que têm. “Acho que de certa forma os brasileiros não querem dizer que são ricos porque não querem ajudar. Eu não gosto disso”, disse ele.

O Guardian comenta que a ascensão de Batista coincidiu com “grandes mudanças no Rio, com novas políticas de segurança, um incipiente boom de petróleo e a expectativa da Copa do Mundo e da Olimpíada jogando os aluguéis e os preços dos imóveis para os céus e atraindo uma onda de investimentos estrangeiros”. “Nossa autoestima está no teto, com a Copa do Mundo, a Olimpíada, uma série extraordinária de investimentos chegando”, diz Batista.

Para ele, parte do sucesso do Rio se deve às políticas do governo para retomar o controle das favelas da cidade. “Como cidadão do Rio de Janeiro, isso é maravilhoso, porque podemos ver a solução. Ela funciona. Está funcionando. Com a pesada criação de riqueza... Eu posso ver tudo isso sendo resolvido. É possível”, conclui o empresário.

A ideia em torno do socialismo ecológico

Marcus Eduardo de Oliveira *

Mudar radicalmente a racionalidade econômica; aproximar as preocupações da ciência econômica para a necessidade de libertar o homem; criar um novo ambiente propício para a vida de todos os seres humanos, sem a divisão costumeira que privilegia alguns em detrimento de muitos e reconhecer, definitivamente, a existência de limites ao crescimento. São esses alguns pontos centrais da discussão em torno do que se convenciona chamar socialismo ecológico; ou como alguns preferem de ecossocialismo.

Socialismo, sim, no sentido de enaltecer os laços sociais e políticos que respeitam, primeiramente, a Mãe Terra. Socialismo no sentido de fazer a crítica verdadeira ao "deus-capitalismo" que se afirma consoante a ideia básica de que o mercado, altar sagrado do dinheiro, pode tudo. Esse socialismo, aqui defendido, se põe em posição contrária a essa premissa, pois entende que o mercado é incapaz de resolver tudo e que o mundo não pode viver apenas de consumo e mais consumo, como o "deus-capitalismo" sempre quis que assim fosse e quer que assim seja.

Quem tem olhos para ver sabe que a contradição entre capital e natureza aí está posta e deve ser repensada à luz de uma nova perspectiva que inclua, essencial e preferencialmente, o ser humano dentro do objeto de análise dos modelos econômicos, partindo da premissa que o mundo não é, como dissemos, um objeto, uma simples e qualquer mercadoria pronta para ser digerida por bocas ávidas. Se o consumo consome o consumidor, o socialismo ecológico, o ecossocialismo, vem para refutar o deus-mercado e pôr novas regras no jogo, defendendo as bases de sustentação da vida, condenando, primeiramente, o consumo artificialmente induzido pela publicidade que faz a sobrevivência daquele "deus" que ora mencionamos.

Esse socialismo ecológico, defendido pelo economista mexicano Enrique Leff, pelo sociólogo Michael Lowy, por Victor Wallis, John Bellamy Foster, Jean-Marie Harribey, Raymond Willians, David Pepper e tantos outros nomes de destaque na academia, aponta para a necessidade de incutir no imaginário coletivo a verdade de que toda vez que o capital se constrói sob as ruínas da natureza é a vida de todos nós que entra em perigo. Talvez seja por isso que Enrique Leff acertadamente pontua que "a economia está gerando a morte entrópica do mundo". Essa "morte", em nosso entendimento, é cada vez mais explícita quando se percebe que a única preocupação dos "Senhores da Economia Mundial" é em salvar o grande capital, não em salvar o planeta e a vida. Por sinal, melhor seria dizer em salvar a vida, pois o planeta saberá viver sem nós uma vez que não depende de nossa presença para sobreviver.

Pelo lado da economia voraz e consumista, base do deus-mercado, que a tudo destrói em nome de atender aos ditames mercadológicos, somos sabedores de que a ordem da macroeconomia comandada por esses "Senhores" é uma só: fazer crescer e crescer e crescer cada vez mais a economia mundial. Do outro lado, para o bem da sobrevivência e do respeito às leis da vida, a ordem da ecologia também é una: lutar pela possibilidade de assegurar a sobrevivência de nossa espécie.

Conquanto, o fato é que já não é mais possível aceitar a prédica mercadológica que faz com que uma minoria prospera enquanto uma maioria conheça de perto o drama da exclusão numa sociedade que parece não ser de outra natureza além daquela consumista, insuflada pela propaganda, financiada pelo capital, destruidora da natureza.

Os que defendem o modelo de fazer a economia crescer sem limites para assim promover a "felicidade geral", como se isso fosse exequível, e como se não houvesse nenhum tipo de diferença sócioeconômica, se equivocam ao ignorar que esse "crescimento" é dependente das leis da natureza e a natureza, em toda sua amplitude, não é (e nunca será) capaz de dar conta dessa política de crescimento.

Nesse sentido, a economia parece ser completamente míope em relação à necessidade de se regular a produção. Para o bem daqueles que se encontram ao lado da ecologia, contra a economia destruidora, cabe atentar aos preceitos desse novo pensamento que ganha, cada vez mais, contorno de paradigma que veio para ficar. Consoante a isso, analisemos a seguir o que tem dito Lowy e Bellamy Foster que trabalham a ideia de "ecossocialismo".

O ecossocialismo
Afinal, o que é o ecossocialismo? Para Lowy, "Trata-se de uma corrente de pensamento e de ação ecológica que toma para si as conquistas fundamentais do socialismo - ao mesmo tempo livrando-se de suas escórias produtivistas".
Já o sociólogo John Bellamy Foster definiu o ecossocialismo como sendo "a regulação racional da produção, respeitando a relação metabólica entre os sistemas sociais e os sistemas naturais, de forma a garantir a satisfação das necessidades comuns das gerações presentes e futuras".

Portanto, a definição dada por Foster não está muito distante da recomendação feita pelo Relatório Brundtland. Para melhor ilustrar-se essa questão, três aspectos realçam o posicionamento de Foster. São eles:

* O reconhecimento dos limites ao crescimento e a ruptura com a lógica produtivista que associa o aumento do bem-estar a um aumento da produção. Colocar o prefixo eco na palavra socialismo implica conciliar a igualdade intrageracional com a igualdade intergeracional;
* A reformulação do sistema produtivo de forma a torná-lo dependente unicamente do uso de recursos renováveis, articulando com o princípio anterior. Cumpre ressaltar que a sustentabilidade exige um uso dos recursos renováveis a um ritmo que garanta a sua renovação;

* O uso social da natureza, privilegiando a gestão comunitária de recursos comuns.
Como visto, os termos ecossocialismo e socialismo ecológico estão longe de serem apenas modismos ou meras retóricas românticas. São, ademais, conceitos que ganham contornos relevantes num mundo que vive intensamente a mais grave crise ecológica de toda a história. Para o bem de todos nós, o pensamento em defesa da sustentabilidade se fortalece no dia a dia. A natureza e a vida agradecem.

* Economista brasileiro, especialista em Política Internacional. Articulista do site "O Economista", do Portal EcoDebate e da Agência Zwela de Notícias (Angola)

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