ENTREVISTA COM CHICO ALENCAR: "DEFENDO UMA ALIANÇA COM MARINA, MAS COM CONDIÇÕES"

Marina Silva pode se construir como alternativa, com a chama mudancista, aplicando a medida correta da intransigência em relação a certos princípios e valores que o PT abandonou", relatou Chico Alencar, em entrevista à IHU On-Line, concedida por e-mail, com o apoio dos nossos parceiros do CEPAT. O deputado federal pelo RJ falou sobre o escândalo do "mensalão do DEM" e as consequências desse novo episódio de corrupção para as eleições presidenciais que ocorrem no segundo semestre do próximo ano. Além disso, Alencar refletiu sobre a candidatura de Marina e as possibilidades de o PSOL apoiá-la. "O PSOL decidiu, em seu Diretório Nacional, que só definirá sua tática eleitoral em março de 2010, numa conferência com representantes do partido de todo o país. Até lá, já estamos fazendo debates na militância, claro, e dialogando, a partir de pontos programáticos, com os movimentos sociais, com a pré-candidatura própria já colocada, a de Plínio de Arruda Sampaio, com outras que possam ser apresentadas, com os aliados da disputa nacional anterior, de 2006, PCB e PSTU, e também com a pré-candidatura de Marina Silva, do PV", acrescentou.

Chico Alencar é formado em História pela Universidade Federal Fluminense e é mestre em Educação pela Fundação Getúlio Vargas. É professor licenciado de Prática do Ensino de História da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Em 2002, foi eleito Deputado Federal pelo PT, e, em 2006, foi reeleito pelo PSOL.

Confira a entrevista.
IHU On-Line - Como o senhor avalia o mais recente escândalo de Brasília?
Chico Alencar - Há duas novidades, sempre lamentáveis, nesse novo escândalo conhecido como ‘mensalão do DEM’: é o mais bem documentado esquema de corrupção já visto neste país, envolvendo figuras públicas do Executivo, do Legislativo e do mundo empresarial. Há também suspeitas sobre membros do Judiciário. ‘As cenas não falam por si’, disse Lula: sim, elas gritam, ululam! E ainda tem a "oração da propina", aquela ‘benção’ que os bandidos se dão, agredindo o sentimento religioso de nosso povo. O outro ineditismo é o protagonismo do DEM, que desde que mudara de nome, deixando de ser PFL, vinha buscando afirmar-se com marca de partido renovado, ético. Pura balela. Quem acompanha mais de perto a vida política sabe que o patrimonialismo, o coronelismo, o clientelismo e todos os métodos que acompanham estas concepções políticas são inerentes ao DEM/PFL. Eles usam o nome "democratas" em vão.
IHU On-Line - Quais são as implicações desse escândalo para as eleições de 2010?
Chico Alencar - O discurso ético, da defesa da moralidade pública, vai perder espaço na campanha de 2010. O roto não poderá falar do esfarrapado!  Todos os grandes partidos são investigados por esquemas pesados de corrupção: o PSDB, pioneiro com o ‘mensalão mineiro’ do então governador e hoje senador Eduardo Azeredo; o PT, com seu ‘mensalão delubiano’; o PMDB de Jader Barbalho, Renan Calheiros, Sarney etc; o DEM/PFL de Arruda e comparsas - por sinal, PSDB e PPS tinham grande força na administração brasiliense.  Mas é claro que essa cumplicidade de assemelhados espúrios não representa a sociedade brasileira inteira: haverá demanda para propostas alternativas à falsa polarização PT e aliados X tucanos e sócios. O PSOL não abre mão de se diferenciar, propositivamente. Mas o desencanto com a política, crescente, vai estar presente.
IHU On-Line - O senhor acredita que a candidatura de Marina Silva pode ocupar o lugar da utopia que um dia foi do Lula?
Chico Alencar - Marina Silva pode se construir como alternativa, com a chama mudancista, aplicando a medida correta da intransigência em relação a certos princípios e valores que o PT abandonou. Seu rompimento, não previsto, com o PT e o governo, é positivo. Quanto a ser uma alternativa real, é uma possibilidade. O primeiro passo é revelar a propalada ‘refundação do PV’, que até agora não se viu. O partido é mais furtacor, no sentido da sua geleia ideológica - apoia Lula, Serra, Kassab, por exemplo - do que verde, ecológico.
O segundo passo é Marina mostrar um perfil mais definido, menos diluído nos seguidos elogios à gestão dos últimos 15 anos, de FHC e Lula. Ela aprova este modelo econômico?  Este sistema político? Será apenas a continuação, ‘melhorada’, de tudo o que está aí? O que é exatamente ‘desenvolvimento sustentável’, que hoje absolutamente todos defendem, até megaempresários, sem necessidade de praticá-lo? O PSOL tem dialogado com esta pré-candidatura, buscando essa nitidez.

IHU On-Line - O PSOL lançará candidatura própria à presidência ou apoiará Marina Silva?
Chico Alencar - O PSOL decidiu, em seu Diretório Nacional, que só definirá sua tática eleitoral em março de 2010, numa conferência com representantes do partido de todo o país. Até lá, já estamos fazendo debates na militância, claro, e dialogando, a partir de pontos programáticos, com os movimentos sociais, com a pré-candidatura própria já colocada, a de Plínio de Arruda Sampaio, com outras que possam ser apresentadas, com os aliados da disputa nacional anterior, de 2006, PCB e PSTU, e também com a pré-candidatura de Marina Silva, do PV.  É nesse campo que estamos nos movimentando, e já há uma profusão de documentos defendendo, com rica argumentação, todas essas hipóteses. Mas a decisão final será da militância, na Conferência Eleitoral. Estou até sugerindo a possibilidade de uma consulta direta a todos os nossos filiados. Seria o mais democrático, ao meu juízo.
IHU On-Line - O senhor defende o apoio à Marina ou à candidatura própria?
Chico Alencar - Defendo uma aliança nacional com Marina, mas com condições: a de ela assumir uma postura crítica ao modelo econômico e político que FHC e Lula implementaram, inclusive com auditoria da dívida e defesa de uma Reforma Política radical; postura claramente contrária à corrupção sistêmica que envolve todos os grandes partidos e a maioria dos pequenos; sinais claros da ‘refundação do PV’, escoimando o seu partido de fisiológicos e oportunistas; e maior definição da centralidade da questão ambiental, que implica em problematizar as possibilidades do sistema capitalista ser ecologicamente sustentável. Tenho dúvidas de que ela possa ou mesmo queira avançar na direção desses pontos, mas temos a obrigação de tentar, no diálogo respeitoso. O PSOL faz alianças, e alianças são sempre com os diferentes de nós, com escopo programático mínimo. Aliás, o debate que estamos fazendo com essa e outras forças políticas também serve para montar as bases do nosso programa de governo, indispensável para a alternativa de candidatura própria, que pode vir a ser uma necessidade.
IHU On-Line - O PSOL já tem cinco anos de vida, porque o partido não cresce?
Chico Alencar - O PSOL, por ser um partido de orientação socialista e, portanto, estratégico, não quer crescer como plantação de alfaces, e sim como cultivo de jabuticabeira, aliás, a única fruta autenticamente brasileira: devagar, mas com raízes e longa vida. A esquerda não-lulista continua muito fracionada e, é verdade, ainda não realizamos nossa pretensão de reaglutiná-la. Mas já estamos com 50 mil filiados, e os critérios para a vinculação ao partido não são frouxos, como nos outros, que têm cerca de um milhão de fichas assinadas... Há, no Brasil e no mundo, uma grave crise de participação política, induzida pelo sistema do mercado total e do individualismo, e nós sofremos também seus efeitos. Temos também um "internismo" demasiado, uma tentação de nos satisfazermos com as disputas ideológicas no interior do partido, que ainda é mais de correntes do que uma organização com correntes. Tudo isso nos debilita, mas não tira, de modo algum, o imperativo da nossa existência, construção e crescimento. O PSOL continua sendo uma necessidade histórica para os setores populares. Mas isso, por si só, não garante nossa permanência.
IHU On-Line - O governo Lula caminha para o seu final. Qual o balanço que o senhor faz?
Chico Alencar - Lula enfraqueceu a politização do nosso povo, desconstituiu o PT como referência de luta política progressista, reforçou o personalismo e consolidou, no senso comum, a ideia de que só se faz política com ‘pragmatismo’ e um certo grau de esperteza. Sua era assemelha-se à de FHC, mas não é idêntica: por sua origem e formação, Lula, percebido pelo povo como um Silva, um ex-pobre, sobrevivente da grande tribulação, imprimiu a marca de ‘sensibilidade social’ com seus exitosos programas assistencialistas. Na política externa, houve avanços, inclusive na boa relação com governos efetivamente de esquerda e de mobilização social em ‘nuestra América’.
Trata-se de um governo de muitas ambiguidades: transitamos no neoliberalismo puro e duro, da privataria absoluta, para um governo social-liberal. Mas os grandes conglomerados, baseados nas seguidas megafusões, nos fundos de pensão e nos financiamentos estatais do BNDES, estão a pleno vapor.  No setor financeiro, industrial, tecnológico, energético, de alimentos e varejo, toda semana há notícias dessa neomonopolização. O capitalismo brasileiro ganha nova fisionomia, e o governo Lula tem papel importante nesse processo.  Não por acaso, Delfim Netto recém disse que "Lula salvou o capitalismo no Brasil".  E não por acaso Maluf complementou: "Lula, Sarney, Collor e eu não temos grandes diferenças de visões e ideologia".

IHU On-Line - O sociólogo Rudá Ricci afirma que a Era dos movimentos sociais no Brasil acabou, que os mesmos se transformaram em organização, com hierarquia, recursos, equipamentos. Qual é a sua visão como historiador?
Chico Alencar - Li o artigo de Rudá e concordo em boa parte com sua reflexão/denúncia. Mas não absolutizaria, afirmando que "a era dos movimentos sociais acabou".  Ao contrário, vejo - no MST, por exemplo - um certo incômodo com essa institucionalização, essa oficialização, essa domesticação. Alguns movimentos, em especial os sindicais, ficaram de fato prisioneiros das estruturas mantenedoras do Estado. Mas movimentos sociais autônomos, questionadores e organizadores do povo com independência política continuam sendo fundamentais para constituirmos aqui uma democracia de alta intensidade, uma República digna do nome: participativa, com políticas públicas universais redutoras das desigualdades sociais.
IHU On-Line - O senhor sempre foi identificado como cristão e participa do Movimento Fé e Política. Qual é a sua avaliação dos rumos da Igreja no Brasil?
Chico Alencar - As Igrejas - tanto a Católica quanto outras denominações com tradição histórica - vivem, no Brasil e no mundo, uma inflexão conservadora um tanto fundamentalista. Talvez como reação ao notável crescimento das evangélicas de recente formação, que infantilizam ao extremo a fé da nossa gente, numa perspectiva salvacionista e individualista. Mas há movimentos de base vivos, na linha da Teologia da Libertação, que seguem sendo fundamentais: uma nova maneira de ser Igreja é possível e necessária.  Incorporando, inclusive, a questão ambiental, do cuidado com o planeta, do dever cristão de evitar o envenenamento planetário, o ecocídio. Conversão, agora, para além da pessoal, é também no nosso modo de conviver, de produzir e de consumir.  As Igrejas sempre tiveram contradições. A duas horas da suntuosa Roma do poder está Assis, a do pobrezinho, a do cântico das criaturas. A História nos ajuda: trata-se agora de viver mais simplesmente, para que simplesmente todos possam viver.
IHU On-Line - O senhor é candidato ao governo do Rio em 2010?
Chico Alencar - Não! Nosso entendimento é de que o PSOL precisa ter presença institucional, inclusive para reforçar, através dessa presença, a luta popular, pois pouquíssimos a reverberam nas instâncias estatais, no parlamento. Então, o pleito de 2010, a meu ver, deve ter para nós o objetivo de ampliar mandatos parlamentares.  Não acumulamos força suficiente para disputar com chances reais de vitória eleitoral nenhum governo estadual.  Estaremos na disputa, fazendo o contraponto com os grandes partidos e seus esquemas milionários, ‘mensaleiros’. Mas a orientação predominante é colocar na disputa proporcional, para deputados, os nossos quadros mais conhecidos, com mais chances de vitória.  Tanto que Heloísa Helena tentará voltar ao Senado por Alagoas, enfrentando as poderosas oligarquias de Renan Calheiros e Collor. Nada está definido, mas, no Rio de Janeiro, há uma opinião predominante de que eu deva, para ajudar o partido, tentar mais um mandato de deputado federal. Por mim, caso isso aconteça, será o último. Afinal, há muitas maneiras de contribuir para a organização do povo em busca de outra sociedade igualitária, participativa, socialista.

* Instituto Humanitas Unisinos

O VELHO JEITINHO BRASILEIRO


Em 2007 o escândalo dos cartões corporativos veio a tona e tomou conta do noticiário nacional. Dentre tantos “servidores” públicos pegos com a mão boba na bruaca dos brasileiros, um “desavisado” funcionário do Ministério das Comunicações, chegou a pagar a reforma de sua mesa de sinuca com “seu” famigerado cartão. O Ministro da Copa de 2014/Olimpíadas do Rio e baiano dos Esportes, Orlando Silva, sacou da gibeira um cartãozinho corporativo e quitou um beijú de tapioca no valor de R$ 8,30. Mas “mulê arretada” era a Ministra da Promoção da Igualdade Racial, Matilde Ribeiro, que “duma lapada só” embolsou R$ 101.594,11 em diárias de viagens, acabou demitida, mas não devolveu a grana “Eita viage cara virada no mói de cuento”.
Já o “Super Herói Tupiniquim”, Presidente Lula, quando se “aposentar” da Presidência da República em 01 de janeiro de 2011, continuará se deleitando na “teta da viúva”. A sua inteira disposição ficará: 2 carros, 2 motoristas e mais 8 assessores todos escolhidos por ele. E nós, pagamos a conta é claro!  Canta Mestre Lula, canta Gonzagão, canta: “... uma pra mim, uma pra tu, uma pra mim, outra pra mim...”.
Agora, não pensem vocês que somente em Brasília é que nossos “dignos” servidores dão uma “puladinha” na cerca da ética e da moral. Pus meu “bisbilhotômetro” para funcionar e descobri que existem “espertalhões” no governo baiano também.
Espinhem essa traquinagem: nos dias 15 e 19 de setembro aconteceu o V Seminário do Cerrado em São Desidério e Barreiras. A programação do evento foi disponibilizada no sítio eletrônico www.cra.ba.gov. br. Entre as autoridades da programação, não incluía a presença do Secretário de Meio Ambiente da Bahia, Dr. Juliano Matos, que por sua vez não se fez presente, mas enviou gentilmente emissário para representar- lhe.
O “curioso” disso tudo, é que Dr. Juliano, mesmo não vindo ao evento, solicitou no dia 22/09/2009, diárias no valor de R$ 392,60, e recebida no dia 24/09/2009, conforme consta no empenho nº 11888, nota fiscal nº 200900902 e disponível no www.senhaaberta. ba.gov.brO Secretario alegou ter participado do evento, ou seja, o Dr. Juliano Matos passou para a capanga as diárias mesmo não estando presente no V Seminário do Cerrado. O que fez então o secretário para justificar o recebimento das diárias? Ou houve algum erro da “tale das internets”?
Caros leitores, se “apronchege mais e prestenção neste restin de prosa”: Num é que Juliano Matos esteve por aqui sim nesta dita data! Não para o Seminário, pois nem apareceu lá, não a serviço da SEMA ou do contribuinte baiano, então, o que fazia por estas bandas do Rio Grande nosso ilustre Secretário? Deliciando-se numa galinha caipira na Nanica que não era! Mas vou me arriscar a responder: construindo sua base eleitoral na região para 2010, pois é pretenso candidato a Deputado Federal. E dentre seus “compromissos de secretario/candidat o” esteve em Riachão das Neves, reunindo-se com o grupo político do ex-prefeito Dorgival Bonfim – o Dorge, além de Bom Jesus da Lapa e outros municípios do oeste.
Comenta-se ainda, que além do aporte financeiro das diárias, nosso Dr. Secretário Matos, iniciou sua campanha eleitoral por aqui,  “atirando com a soca-bucha alheia”, abordo de carro oficial, com motorista, combustível, hospedagem, alimentação e tudo pago como parece, com recursos públicos. “Tu assunta um trem desse homi, o Dotô da caipitá trabaia de candidato é, antão niquem qui nois vai creditar?  “Sei não, quero équi o mundo se acabe numa enchente de leite, e eu, escorado num barranco de cuscuiz!”
Vergonha é o menor dos adjetivos que posso utilizar para estes que mal intencionados e com “jeitinho brasileiro”, se aproveitam e driblam as Leis para se locupletar na política e do erário público. É preciso que o Tribunal de Contas da Bahia, Ministério Público Estadual e a Assembléia Legislativa, estejam atentos e façam as devidas averiguações, bem como, publicamente se manifestem quanto a este fato. Declama Poeta Matos, declama Boca do Inferno, declama: “... estupendas usuras nos mercados, todos, os que não furtam, muito pobres: e eis aqui a cidade da Bahia.”
Concluo meus caros amigos e amigas, “este romanesco jogral”, citando a poetisa Cora Coralina: “... plantemos a roça, lavremos a gleba, cuidemos do ninho, do gado e da tulha. Fartura teremos e donos de sítios felizes seremos.” E nada mais!


PUBLICADO EM:


 Data: Quarta-feira, 18 de Novembro de 2009, 22:49

Coluna
Zé Dendágua
Jornal do São Francisco – Ano IV Nº 63 / Página 28.


Por Fernando Machado
Pré Alfabetizado
www.zda.com. br

No agronegócio não existe essa questão de produção ecologicamente correta

O agronegócio visa somente o lucro e dificilmente irá ter uma real preocupação com as questões ambientais e relações de trabalho. A opinião é do Coordenador Nacional da Comissão Pastoral da Terra (CPT) Dirceu Fumagalli, que participou da divulgação dos dados preliminares do relatório de conflitos do campo. A região Norte foi a que apresentou os maiores índices de assassinatos e trabalho escravo do País.
Em entrevista ao site Amazonia.org.br, 30-11-2009, Fumagalli comenta a elaboração dos estudos de violência do campo e afirma que os dados podem ser ainda maiores. Segundo ele, a única solução para o enfrentamento do problema seria a reforma agrária, tendo em vista a necessidade de se reconhecer as terras tradicionalmente ocupadas e a desapropriação de latifúndios.
Eis a entrevista.
Como é realizado o levantamento de dados para a elaboração dos relatórios de violência no campo da CPT?
A CPT está organizada em todas as unidades federativas, com exceção do Distrito Federal, onde temos os nossos agentes. Às vezes temos várias equipes em um núcleo regional e são eles que são nossos "catalisadores" de informações, além de termos um grupo de documentarista em Goiânia que coordenada todo esse departamento de documentação. Elas fazem toda a triagem diária de pelo menos 200 jornais ou boletins que circulam no território nacional. É esse banco de dados que nós compilamos e sistematizamos anualmente, desde 1985. Temos esse banco de dados aqui em Goiânia na sede da CPT Nacional e todo final de ano publicamos um documento, que chamamos de Caderno de Conflitos do Brasil.
Existem muitos casos de violência contra os trabalhadores rurais que não são documentados pelos meios de comunicação. Você acredita que os números de violência podem ser maiores do que os que vocês apresentam?
Com certeza. Não temos presença em todas as questões do território nacional. Seguramente a violência e o conflito no campo são maiores do que aquilo que nós sistematizamos.
Além de divulgarem para organizações, impressa e movimentos sociais, vocês costumam usar os dados para estimular a proposição de políticas públicas ou enviam para algum órgão do governo?
O entendimento que nós temos é que quem tem que se apropriar dessa luta, dos mecanismos de organização, de pautar suas reivindicações são os próprios trabalhadores. Eles que têm que ser protagonistas das suas ações, diretamente ou por meio de suas organizações. A Comissão Pastoral da Terra não é uma organização representativa, é uma entidade de serviço. O entendimento que temos é que, ao atualizar o banco de dados, fazermos algumas interpretações e análises e devolvemos isso para os protagonistas da ação do campo. Eles se encontram dentro do conflito e consequentemente buscarão, através de seus pares, formulação de políticas públicas ou enfrentamento daqueles que de fato devem enfrentar como o próprio agronegócio, no caso, e as reivindicações para o governo ou a pressão em cima daqueles de fato têm provocando conflitos.
Os números de pessoas assassinadas por conflitos no campo costuma ser maior na região Norte. Eu gostaria de saber sua opinião em relação a esse dado. Por que nessa região?
Vários fatores. A CPT na verdade surgiu na região Norte, no Pará e depois se espalhou pelo território nacional rapidamente porque foi compreendido que o conflito do campo não é um "privilégio" da região. Infelizmente é uma realidade nacional. Agora o que nós temos observado é que a pressão do modelo do agronegócio no centro-sul do país, onde o agronegócio tem mais voracidade e se apropriou da terra, pressiona outras culturas para que migrem. Principalmente a questão da pecuária nas áreas de fronteiras. Por isso que alguns estados, em especial os que estão mais na fronteira com o centro-oeste e fazem essa transição centro-oeste-norte é que são mais pressionados. Então por isso que o Pará, Rondônia e Tocantins, por assim dizer, são os três estados que fazem essa "entrada na região" onde nós sempre vamos encontrar uma incidência de violência maior.
É a pressão do modelo que faz com que a própria pecuária se expanda para a região, e para que haja espaço para a pecuária e todos os madeireiros, as comunidades tradicionais são pressionadas. Em conseqüência disso há reação e resistência: esse conflito entre o interesse do capital e a luta pela vida dos trabalhadores e trabalhadoras.

Neste relatório é possível perceber também um aumento significativo de todos os dados de conflitos no campo na região Sudeste, regiões que são mais conhecidas por suas cidades...
E é estranho... quer dizer, deveria causar não só uma estranheza, mas uma indignação de nossa parte. O sudeste, tido como a região mais desenvolvida do país, é onde encontramos a maior concentração de conflitos e principalmente trabalho escravo. Não digo que isso é uma aberração, mas é no mínimo um alerta para a sociedade brasileira de que nós não podemos conviver pacificamente com essa situação, com a alta exploração e inclusive com a condição de trabalho escravo nos estados desenvolvidos como São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro.
Acha que isso é um indicador de que nossa produção não está caminhando para uma produção mais ecológica e socialmente justa?
No agronegócio não existe essa questão de uma produção ecologicamente correta e nem justa nas relações trabalho. Ele visa o lucro. Por isso que, nessas regiões onde o agronegócio se consolidou e teve respaldo, inclusive de políticas de governo, consequentemente vamos encontrar o capital mais livre e, por causa da impunidade, nós não encontramos fazendeiros presos porque escravizaram, mesmo isso sendo um crime. Muito menos que perdem seus bens ou que sejam castigos por alguma questão. Essa impunidade no campo é que um dos grandes fatores que continua fomentando e gerando crimes e permitindo a pressão da violência no campo.
Acredita que existe algum caminho para diminuir reverter esse quadro e diminuir os índices de violência no campo?
O caminho é a reforma agrária em primeiro lugar. Reforma agrária, no sentido da desapropriação dos latifúndios, reconhecimento dos territórios tradicionalmente apropriados pelas comunidades, tanto áreas indígenas, como os quilombolas, os territórios dos ribeirinhos. Temos que ter uma regularização fundiária e a desapropriação dos latifúndios. Se isso não ocorrer, os proprietários desse mecanismo vão continuar fazendo com que as terras cumpram um único objetivo: gerar lucro. E não gerar alimento ou um lugar para se viver, mas um lugar para se produzir, produzir lucro.

* Notícias da Amazônia. Amigos da Terra - Amazônia Brasileira


NOTÍCIAS DA TRANSPOSIÇÃO

Recentemente participei com a ARTICULAÇÃO DO SÃO FRANCISCO de um mutirão pelos eixos da transposição. E para expressarmos tudo o que vimos a ARTICULAÇÃO criou este blog 

Dia da Consciência Negra em Jacobina







O dia 20 de novembro é o dia da Consciência Negra. A data foi escolhida pelo Movimento Negro em contraposição ao dia 13 de maio (dia da suposta abolição da escravatura) e é uma homenagem a Zumbi dos Palmares, que faleceu neste dia a 344 anos. Zumbi foi o líder do Quilombo dos Palmares - que é considerado o maior foco de resistência negra à escravidão no Brasil. Mais de três séculos após a sua morte, constata-se que o racismo não deixou de existir, ou de  manifestar-se cruelmente. Na verdade, a opressão contra a cor somente modernizou-se, assim como a sociedade da opressão modernizou suas formas de dominação durante muitos e muitos anos.
As diversas organizações ligadas à questão racial têm esta data como um ponto de convergência para manifestações e reflexões sobre suas formas de luta e atuação por uma sociedade que saiba respeitar, contemplar e congregar as diferenças. Podem ser tomadas como exemplo a adoção - em meio a muitas discussões ainda em vigência - das Ações Afirmativas - cotas para negr@s, que já estão em vigor em universidades como a UERJ, UnB, UFAL e UNEB e a lei que obriga o ensino da história africana e afro brasileira nas escolas.
Manifestações, atos e passeatas foram organizados em todas as regiões do país. Na cidade de Salvador o presidente Lula assinou a “regularização fundiária” de várias comunidades remanescentes de quilombolas.
Aqui em Jacobina o CODEP – Conselho Regional de Desenvolvimento Rural Sustentável da Região do Piemonte da Diamantina organizou as manifestações do dia 20 de novembro (dia da consciência negra).
Um dos pontos que nos chamou mais atenção foi constatar a escravidão que ainda vive grande parte da imprensa escrita local. Principalmente os bloguistas de plantão (apesar de que alguns que assinam a propriedade destes blogs serem de cor “parda” como se intitulam e como se o pardo não fosse um descendente de negro ou afro descendente; tirando fotos dos passeios onde comodamente assistiam a caminhada negra passar).
Mas até hoje, dia 22 às 10h14m  apenas os sites www.jacobinanoticia.com.br   www.blitztotal.com.br tiveram  a independência de publicar a manchete do evento. Será que os blogs que dizem ser os mais acessados, sabem que, ainda por ignorar, muitos afros descendentes acessam esses espaços? Por ser e ter esta cidade um grande número destes?
Também faço uma ressalva à imprensa falada, que segundo comentários que ouvi, um radialista fez bons comentários pela emissora que trabalha e como a maioria dos programas jornalísticos em rádio de nossa cidade na segunda feira é que fazem os comentários do que aconteceu no final da semana deverão trazer esta pauta libertadora, que é a consciência negra celebrada na última sexta feira em nossa cidade, onde as entidades que fazem o movimento social jacobinense, trouxeram à Praça Castro Alves, que é do “povo”, várias manifestações populares ensinadas pelo nosso líder maior, Mestre Zumbi dos Palmares.
Encerrando a minha manifestação tenho certeza que neste exato momento que escrevo este texto (domingo dia 22, às 10h28m), os blogs da cidade devem estar em tempo real, transmitindo mais uma caminhada elitista que sempre nos escravizou e continua escravizando. Logo teremos um grande painel de fotos dos “capitalistas” da nossa terra (incluindo este tipo de mídia). Quem sabe se os afros descendentes que participaram da caminhada pelo dia da consciência negra encontrassem e tivessem acesso a um Infocentro em “funcionamento” pudessem ler este texto pela Internet?
Almacks Luiz Silva
Socioambientalista – MPA – Movimento dos Pequenos Agricultores                           

COP 15: Empurrando o clima com a barriga

COP 15

Os líderes mundiais estão se superando na questão do meio ambiente. Se antes havia compromissos para não serem cumpridos, como foi com o Protocolo de Kyoto, agora sequer assumem obrigações, já que acordos são adiados de véspera. Foi o que aconteceu com a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, marcada para dezembro em Copenhague.
O esperado tratado internacional de redução das emissões dos chamados gases estufa não sairá mais. Por decisão do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, além da China e outros líderes globais, o acordo para o clima foi adiado.
Da reunião de Copenhague sairá uma mera declaração de intenções “politicamente vinculante”, sem o pretendido caráter obrigatório. Um acordo efetivo fica para depois, talvez na Conferência do Clima que será realizada no México em dezembro do próximo ano.
É claro que a expressão “politicamente vinculante”, criada para abafar o fracasso da reunião que ainda nem ocorreu, não vai além da retórica. Em termos práticos a reunião de Copenhague perdeu o sentido, se é que teve algum para as autoridades mundiais.
As dificuldades para chegar a Copenhague com a possibilidade de alcançar um acordo para o clima já eram sentidas há meses. Para emissões menores dos chamados gases estufas é preciso mudar o modelo econômico dominante. Acontece que alguns países altamente poluidores, como a China, começaram a gozar este crescimento recentemente e tomaram gosto pela coisa. Dificilmente vão mudar algo sem que se vejam forçados a isso.
Outros países, como os Estados Unidos, estão há décadas na linha de frente do abalo do clima terrestre. São os promotores mais ativos do modelo que está levando o mundo à breca.
Não é só coincidência que a notícia da transformação do encontro em Copenhague em um mero passeio tenha vindo na mesma semana em que o presidente Barack Obama se encontrou com o presidente chinês Hu Jintao.
Obama é um político que aparenta ter consciência da urgência do problema do clima, mas sofre cerrada barreira interna dos republicanos e também de parlamentares conservadores de seu próprio partido. Num país onde até a extensão do seguro saúde para a população mais pobre é de difícil convencimento da classe política não deve ser mesmo fácil se entender quanto ao aquecimento global.
46 milhões de norte-americanos não têm seguro saúde e por causa disso morrem por ano 45 mil pessoas por falta de bons cuidados médicos.
Sendo difícil entrar em acordo num tema desses, imaginem então complicação que a defesa do clima pode ser para a classe dirigente de uma potência que se fortalece em boa parte com a exploração sem limites dos recursos do planeta.
O país de Obama tem 4% da população mundial, sendo responsável por mais de 20% de todas as emissões globais de gases do efeito estufa.
Já a China é responsável por 15% e não demonstra intenção alguma de parar por aí. Até porque sua capacidade de crescimento só recebe incentivos e aplausos dos outros países. A dificuldade de sustentação deste progresso insano não conta. Os chineses poluem e esgotam seus recursos naturais. Algumas regiões já sofrem com a falta d’água, a destruição do solo e a ruína ecológica de imensas porções de seu território. Mas o que conta para a maioria dos países, incluindo o Brasil, é tirar um naco de aproveitamento do crescimento chinês.
A história chinesa também é marcada pela obstinação na implantação de modelos de desenvolvimento cujo número de vítimas mortais alcança sempre a casa dos milhões. Na estúpida campanha liderada por Mao Tse-Tung (1893-1976) chamada “Grande Salto Adiante”, que pretendia industrializar a China de forma rápida, morreram cerca de 20 milhões de pessoas, vitimadas em grande parte pela fome. Os números fatais são sempre grandiosos e a marcha interrompe-se apenas depois de tragédias humanas colossais.
Não é razoável acreditar que um país com tal histórico escolha a opção do necessário desenvolvimento equilibrado sem que haja antes um número fenomenal de vítimas dando o aviso de pare que o sistema comunista demora a perceber.
O lado capitalista também tem uma má-vontade semelhante. Mesmo que haja maior liberdade de opinião, permitindo a discussão dos temas ambientais e até claras divergências, a verdade é os Estados Unidos estão longe de aceitar um refreamento do egoísmo e da ganância que levaram o mundo a esta situação grave.
Os dois maiores poluidores lideraram os demais países para adiar em pelo menos um ano um acordo que já viria tarde neste mês de dezembro em Copenhague. Isso não só é empurrar para frente uma situação já bem grave, como também abre-se um campo para que até lá ele o problema esteja bem mais difícil de resolver.
Movimento Água da Nossa Gente
Os recursos hídricos do planeta tratados como um bem comum
Acesse o nosso blog: aguanossa.blogspot.com

* Colaboração do Movimento Água da Nossa Gente para oEcoDebate, 19/11/2009

Artigo da BBC revela: Foz do Rio São Francisco é uma das mais ameaçadas do mundo.

Matéria publicada no portal da BBC cita um estudo divulgado na revista Nature Geoscience, que mostra que a maioria dos deltas dos grandes rios em todo mundo estão em processo de rebaixamento pondo em risco milhões de pessoas que moram nestas áreas. Barragens e transposições são responsáveis pela diminuição dos sedimentos que chegam até os deltas. Além disso, a extração de gás e água subterrânea causa rebaixamento de terra.


Leia mais:http://news.bbc.co.uk/2/hi/science/nature/8266500.stm

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