Prefeito e secretários são denunciados por crime ambiental na BA


O MPF (Ministério Público Federal) na Bahia ofereceu denúncia contra o prefeito João Henrique de Barradas Carneiro e os secretários Armando Lessa Silveira e Paulo Henrique Rushi por irregularidades na execução de obras de construção e reconstrução de barracas situadas na faixa de areia da praia, ao longo da orla marítima da cidade de Salvador (BA), o que causou danos ao meio ambiente. A denúncia aguarda recebimento pelo TRF (Tribunal Regional Federal) da 1ª Região.
O prefeito teria autorizado a execução das obras, criado uma comissão especial para estudos relativos à elaboração do Projeto de Adequação Urbanística e Ambiental da Orla Marítima, e delegado a Armando Lessa e Paulo Henrique a implementação do projeto. Com a autorização de José Henrique, o secretário  municipal de Serviços Públicos e o secretário interino emitiram mais de 50 autorizações para reforma de barracas.
De acordo com o Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), a execução das obras de modernização das barracas da orla aconteceu em área de preservação permanente, sem a necessária licença dos órgãos ambientais competentes. Além disso, em março de 2008, a equipe da Polícia Federal constatou uma série de irregularidades, dentre elas, geração de entulho, tubulação de esgoto sem proteção adequada, destruição de vegetação típica beira-mar e erosão de talude pela falta de vegetação.
O laudo de exame de meio ambiente concluiu que “as obras de reforma e ampliação das barracas de praia na orla compreendida entre Terceira Ponte e Piatã, da forma como foram encontradas pelos peritos, contribuem para a poluição e degradação do meio ambiente”.
“Os denunciados praticaram crime previsto na Lei 9.605/98, por terem causado poluição atmosférica, que pode gerar danos diretos à saúde da população, e poluição hídrica, que pode tornar necessária a interrupção do abastecimento público de água de uma comunidade, além de dificultar ou impedir o uso público das praias”, explicou o procurador regional da República Alexandre Espinosa Bravo Barbosa. Com informações do MPF.

Frio ajuda baiana a quebrar recorde sul-americano dos 10.000 m


Simone Alves da Silva comemora a vitória e o novo recorde sul-americano dos 10.000 metros no Troféu Brasil de Atletismo, no estádio Ícaro de Castro Melo, no Ibirapuera
Simone Alves da Silva comemora a vitória e o novo recorde sul-americano dos 10.000 metros no Troféu Brasil de Atletismo, no estádio Ícaro de Castro Melo, no Ibirapuera, nesta quarta-feira


Debaixo de garoa, a atleta baiana Simone Alves da Silva, 26, quebrou um recorde sul-americano que durava quase 18 anos logo na primeira final do Troféu Brasil de atletismo, disputado em São Paulo.
Nesta quarta-feira, a atleta marcou o tempo de 31min16s56 nos 10.000 metros e melhorou a marca de Carmen de Oliveira Furtado, que era de 31min47s76, de 21 de agosto de 1993, em Strutgart (Alemanha).
"Faltando uns dois quilômetros começou a ventar e comecei a ficar com frio, daí pensei: 'vou correr forte para terminar logo'", explicou Simone após a conquista da prova e do recorde.
Nos metros final, a vice-campeã da São Silvestre do ano passado já acenava para o público tamanha facilidade com que conseguiu correr os 10.000 metros.
Em maio, Simone já havia quebrado o recorde sul-americano dos 5.000 m em pista (com 15min18s85) que já durava 18 anos. A marca também era de Carmem de Oliveira.

http://www1.folha.uol.com.br/esporte/953947-frio-ajuda-baiana-a-quebrar-recorde-sul-americano-dos-10000-m.shtml

Unidades de Conservação como moeda de troca


Foto de Almacks Luiz - Parque Estadual de Sete Passagens em Miguel Calmon-BA - Foto ilustrativa

Para que serve mesmo uma unidade de conservação? Esta parece ser uma pergunta recorrente a governantes e políticos em nível federal e também no estado de Mato Grosso. Essa indagação, que só não tem resposta adequada para quem não tem compromisso com a qualidade de vida, ecoa como uma possibilidade política de se fazer concessões.

Se não for essa a tônica, como aceitar que o governo federal, por meio de um simples decreto reduza três importantes unidades de conservação da Amazônia (Parque Nacional da Amazônia e as Florestas Nacionais de Itaituba 1 e 2) para encontrar menos resistência na construção de duas hidrelétricas? No exemplo mato-grossense o governo estadual, com respaldo da Assembléia Legislativa, faz a desastrosa proposta de "permutar” o Parque Estadual do Araguaia, de 220 mil hectares, localizado entre o Rio das Mortes e Araguaia para os índios Xavante de Marãiwatsédé. Uma proposta que além de ser inconstitucional tem como objetivo garantir a permanência dos invasores na terra indígena.

O descaso para com as Unidades de Conservação, tanto em relação às de Proteção Integral quanto às de Uso Sustentável poderia parecer pontual. Poderia, mas não é. Em 2003, o hoje senador Blairo Maggi, reduziu o Parque Estadual do Xingu por meio de decreto. No ano seguinte, tentou reduzir em dois terços o Parque Estadual Serra de Ricardo Franco. A alegação era a falta de recursos financeiros para fazer as desapropriações necessárias para garantir a integralidade do parque. Não reduziu, mas o parque, localizado em Vila Bela da Santíssima Trindade, assim como vários outros, encontra-se em estado de abandono, depredado e sem fiscalização.

Isso sem falar do caso Parque Estadual Cristalino, localizado entre Novo Mundo e Alta Floresta, no norte de Mato Grosso. No ano passado a Secretaria Estadual do Meio Ambiente autorizou a instalação de uma linha de transmissão de energia elétrica do programa Luz para Todos para beneficiar o irmão do governador Silval Barbosa e posseiros que vivem dentro parque. Um ano depois a Sema reconheceu o erro e se comprometeu a "recuperar” o dano.
Todo esse descaso se traduz em desmatamento. O Sistema de Alerta de Desmatamento (SAD) do Instituto do Homem e do Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) registrou que 15% do desmatamento ocorrido na Amazônia no mês de junho aconteceu dentro dos limites de unidades que deveriam estar protegidas. E mais, de acordo com o Instituto Socioambiental (ISA) 4.066 quilômetros quadrados foram desmatados entre 2001 e 2009 em áreas protegidas.

Enquanto isso, uma importante expedição concluída no início deste ano aponta a possível descoberta de duas espécies endêmicas de primatas na Reserva Extrativista Guariba-Roosevelt, no Noroeste de Mato Grosso. Mas isso praticamente não apareceu na mídia, muito menos teve repercussão política. Salvaguardar as espécies endêmicas é uma dentre as dezenas de funções de uma unidade de conservação, seja ela parque, reserva, estação ecológica, floresta pública, de proteção integral ou de uso sustentável.

No livro lançado este ano "Contribuição das unidades de conservação para a economia nacional”, do Centro para Monitoramento da Conservação Mundial do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (UNEP-WCMC), vários números são apresentados para corroborar a importância das áreas protegidas. Estima-se a produção de madeira em tora em áreas manejadas das Florestas Estaduais e Nacionais da Amazônia pode gerar até R$ 2,2 bilhões por ano. Já as reservas extrativistas identificadas na publicação podem gerar anualmente R$ 16,5 milhões em produção de borracha ou R$ 39,2 milhões em castanha-do-Brasil. Isso sem falar no potencial turístico de R$ 1,8 bilhão por ano em visitas aos Parques Nacionais.

Uma outra conta, considerando o estoque de carbono e a mitigação das mudanças climáticas, em que o mundo inteiro busca alternativas, as unidades de conservação têm um custo de oportunidade estimado que varia entre R$ 2,9 e 5,8 bilhões por ano por desmatamento evitado.

Analisando do ponto de vista ambiental, social e econômico, as unidades de conservação que nunca tiveram importância devidamente reconhecida estão sofrendo revezes cada vez mais graves. Do ponto de vista politiqueiro, são valiosas moedas de troca para alavancar não somente um modelo de desenvolvimento equivocado, mas também votos de cidadãos mal informados.

André Alves
Jornalista em Mato Grosso e especialista em Antropologia

Frente nacional contra tentativas de privatizar a água

Rio de Janeiro, Brasi, 26/7/2011, (IPS) - Para frear o que consideram um processo em curso de privatização da água na América Latina, organizações da sociedade civil começam a coordenar ações conjuntas na região. 

Elas denunciam a aplicação “de diversas formas sutis” que tendem a deixar este recurso fora do controle estatal. Mesmo admitindo que o diagnóstico sobre a situação do controle da água ainda não está claro, o fórum de organizações “trabalha nesse debate”, explicou à IPS o sacerdote Nelito Dornelas, assessor da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) no Fórum Nacional de Mudanças Climáticas.

O que está claro é que há muitas situações pontuais em cada país inclinadas a esse fim, segundo os organizadores do Seminário Internacional: Panorama Político Sobre Estratégias de Privatização da Água na América Latina”, realizado nos dias 20 e 21, na sede da Universidade Federal do Rio de Janeiro. “No Brasil está em curso com relação à água um processo semelhante ao que ocorreu com a energia elétrica quando, depois da privatização, as tarifas aumentaram cerca de 400%”, afirmou, como exemplo, o Movimento dos Afetados pelas Represas (MAB). “Temos de mobilizar a população em torno deste debates”, disse Dornelas.

Para os participantes do Seminário, é preciso convocar um referendo nos países da região, como o realizado em 2004 no Uruguai, que aprovou o controle social dos recursos hídricos do país, ou, mais recentemente, na Itália. Entre outros pontos submetidos a votação, 95% dos que participaram da consulta optaram pelo NÃO à privatização da água. “Queremos que o governo se ocupe do serviço de águas e do recurso, de modo geral”, destacou o MAB.

A América Latina tem hoje o maior controle e posse dos recursos naturais do planeta e, por isto, é importante começar a se mobilizar para preservar essa riqueza, explicou à IPS Rogério Hohn, da coordenação nacional do MAB. Nesse sentido, o seminário “buscou promover um amplo debate das organizações de cada país com vistas a soluções conjuntas”, acrescentou. Para o MAB, a privatização da água se expressa de diversas formas sutis, além do controle do serviço de abastecimento domiciliar.

Por exemplo, entregando aos Municípios a administração desse recurso para enfraquecer negociações em nível nacional, cobrando por seu uso ou apoiando-se em setores como agricultura, mineração ou das empresas de saneamento. “Inclusive as represas para geração de energia elétrica são uma forma de privatização da água, porque não se vende apenas energia, mas a água que está represada”, destacou Hohn.

A ministra do Meio Ambiente do Brasil, Izabella Teixeira, chamou a atenção para um aspecto do informe nacional sobre disponibilidade e qualidade de recursos hídricos, apresentado recentemente pela Agência Nacional de Águas (ANA). O estudo mostra que 69% dos recursos hídricos brasileiros são utilizados para a irrigação de cultivos e pastagens, e que mais de 90% deles vão para o setor privado.

“Temos de ver se essas áreas de irrigação estão em zonas vulneráveis em oferta de recursos hídricos no futuro, para que possamos garantir a produção agrícola com oferta de água, ou se é preciso redirecioná-las”, disse a ministra, ao se referir a uma eventual falta de água para o setor em algumas regiões. O informe, que o governo de Dilma Rousseff tomará como base para a implementação de políticas de administração de recursos, mostra que no setor agropecuário o consumo de água dos animais equivale a 12%, enquanto a demanda de cidades é de 10% e da indústria 7%.

O Brasil é considerado a grande reserva de água doce do mundo, já que possui 11,6% da disponibilidade no planeta e 53% da disponibilidade na América do Sul. Segundo o estudo da ANA, cada brasileiro teria à sua disposição 34 milhões de litros de água doce por ano. Oferta esta que pode baixar se avançarem os processos de privatização do setor, segundo Edson Aparecido da Silva, coordenador da Frente Nacional pelo Saneamento Ambiental.

Em entrevista à IPS, Edson explicou que no Brasil grande parte da operação de serviços de saneamento ainda é pública, atendendo quase a totalidade dos 190 milhões de habitantes do país. O setor privado responde por apenas nove milhões de pessoas, ressaltou. Entretanto, os privados já manifestaram “que em pouco tempo podem ampliar sua inserção na área do saneamento em cerca de 30% da população”. Isto significa “que convivemos o tempo todo com a ameaça de mais privatização”, alertou.

Esse processo vai na contramão do que ocorre em países como Argentina, Alemanha, França e Itália, onde os serviços de saneamento voltam ao poder do Estado, ressaltou Edson. Serviços “que eram privados e voltam a ser públicos porque os governos viram que ficavam caros para a população e, com isso, se excluía muitos cidadãos, sobretudo nos países mais pobres”, concluiu. Envolverde/IPS (FIN/2011)

A MISÉRIA PERSISTE MESMO COM PIB ALTO


A Folha de São Paulo de hoje (31-07-2011), traz uma reportagem sobre as 200 cidades que têm o melhor PIB do Brasil, porém a matéria toma como exemplo a cidade do Este da Bahia, pertencente a Bacia do São Francisco, São Desidério, município produtor de soja, boi irrigado e cana de açúcar.

No Pará a cidade onde abriga o maior complexo da Vale também tem um dos melhores PIB do Brasil, porém em contra-partida tem um dos piores IDH do Brasil. Quando alguém lhe apresentar dados do PIB e do IDH procure pesquisar um dos mais fiéis índices da atualidade. IFDM -  Índice Firjam de Desenvolvimento, que praticamente substitui o PIB e o IDH com mais fidelidade e você desmistifica que PIB alto não quer dizer que os seus munícipes têm uma boa qualidade de vida.

Mais vale a pena ler a matéria da folha de São Paulo.  http://www1.folha.uol.com.br/poder/951982-miseria-persiste-em-30-das-200-cidades-com-pib-mais-alto.shtml

Projeto quer remunerar o proprietário que recuperar APPs


A Câmara Federal analisa o Projeto de Lei 740/11, do deputado Luiz Otavio (PMDB-PA), que prevê a remuneração do proprietário rural ou detentor de posse rural pela recuperação ou manutenção de APPs (áreas de preservação permanente).
De acordo com a proposta, os recursos financeiros para pagamento desse tipo de “serviço ambiental” serão provenientes de doações de pessoas físicas e de entidades nacionais e internacionais, sem ônus para o Tesouro Nacional. O texto não define o valor da recompensa aos agricultores.
O projeto acrescenta artigo ao Código Florestal (Lei 4.771/65). A lei define como áreas de preservação permanente espaços territoriais sob regime de proteção integral, entre os quais as áreas com vegetação natural situada ao longo dos rios, nos topos de morro e nas encostas com determinado grau de declividade. “Toda a população, direta ou indiretamente, é favorecida pelos serviços ambientais decorrentes das APPs e, portanto, nada mais justo do que destinar recursos financeiros aos proprietários rurais que adotem práticas voltadas à recuperação e manutenção dessas áreas”, argumenta o autor.
Também está prevista, na proposta, a alteração da Lei 6.938/81, que dispõe sobre a Política Nacional de Meio Ambiente, para incluir o pagamento por serviços ambientais como instrumento dessa política.
O projeto, que tramita em caráter conclusivo, será analisado pelas comissões de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural; de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável; de Finanças e Tributação; e de Constituição e Justiça e de Cidadania. Com informações da Agência Câmara.

MAB: Mulheres sofrem ainda mais com construção de barragens

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Dia 14 de março, comemorou-se o Dia Internacional de Luta contra as Barragens e, ao mesmo tempo, os 20 anos de existência do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB).  Aproveitando o momento histórico, o Amazonia.org.br fez uma entrevista exclusiva com o coordenador geral do MAB, Luiz Dalla Costa, que abordou temas importantes sobre a questão.
Segundo ele, estudos apontam que as consequências das construções de hidrelétricas são muito mais fortes para as mulheres do que para os homens.  “A mulher é a que tem que se preocupar, principalmente na região rural, com os filhos, com sua propriedade; elas muitas vezes não são respeitadas, porque a visão patrimonialista que as empresas possuem só respeita os ‘chefes de família’”, diz ele.
Costa também aponta que a violação dos direitos das populações na Amazônia foi muito maior.  “Elas sofreram todo o tipo de violência: fraude, uso de veneno para matar a floresta, proliferação de mosquito, não reconhecimento de direitos das famílias que foram atingidas, e que até hoje lutam por seus direitos”.
Veja a entrevista na íntegra.
Amazonia.org.br – Qual a sua análise sobre os 20 anos de atuação do MAB?
Luiz Dalla Costa - É importante dizer que a luta dos atingidos tem mais de 20 anos.  Toda a história dos atingidos vem desde a década de 1970.  O que comemoramos agora é a oficialização do movimento no âmbito nacional, o MAB enquanto uma organização nacional, instituída em um encontro em 1991, em Brasília.
Nós conquistamos, ao longo deste tempo, o direito de se organizar.  O direito de dar a voz e fazer serem ouvidas as populações que sempre eram excluídas no processo de decisão.
O MAB, em seus 20 anos, se transformou em uma ferramenta organizativa daquelas populações mais excluídas, das populações que moram nas barrancas dos rios, que nunca eram ouvidas e que, por meio dessa organização, passam a ser ouvidas.  Tanto que, no ano passado, o então presidente da República, Lula, reconheceu que o Estado brasileiro possui uma dívida histórica com essas organizações e que o Estado deve buscar a reparação dessa dívida histórica.  Ou seja, chegamos ao ponto que as autoridades reconhecem o MAB como instrumento legítimo em defesa dos direitos dos atingidos por barragem, e isso é muito importante.
A segunda conquista é o resultado de nossas lutas.  Por exemplo, a barragem de Belo Monte, que era para ser construída em 1989.  Já naquela época os atingidos estavam se organizando, junto com a luta indígena que é muito forte.  Conseguimos levar essa luta adiante por mais de 20 anos.
Em outros locais do Brasil isso acontece da mesma maneira.  No Sul, há um projeto de construção de uma usina que se chama Itapiranga, que as pessoas lutam há mais de 20 anos para não deixar que seja construída.  Em São Paulo, no Vale do Ribeira, os remanescentes quilombolas estão há 25 anos lutando contra a construção (de hidrelétrica).  Hoje, o Rio Ribeira é o único no Estado de São Paulo que não tem barragens.
Além disso, em locais onde foram construídas hidrelétricas, os atingidos conseguiram ter pelo menos os direitos reconhecidos.  Há vários lugares de reassentamento de populações atingidas, o que antigamente era desrespeitado pelo Estado.
Por último, no final do ano passado, houve a instituição de um decreto, inclusive estamos conversando com o governo sobre sua regulamentação, que reconhece que antes do processo de licenciamento das construções tem que haver o cadastramento e o reconhecimento dos direitos dos atingidos.
Tudo isto é fruto do trabalho não só do MAB, mas das organizações que lutam pelos direitos dos atingidos.
Amazonia.org.br – Quantos atingidos por barragens existiam na época da criação do MAB e quantos existem hoje?
Costa – Eu não tenho este número e isto, inclusive, é uma das críticas, não há dado oficial.  Há um estudo recente de uma professora que faz parte da EPE (Empresa de Pesquisa Energética), Miriam Regini Nutti, que reconhece que não há dados oficiais sobre o número de famílias atingidas.  Até porque o conceito que o Estado e as empresas usavam para os atingidos era só aquele do proprietário de terras.  Muitas vezes, numa mesma propriedade de terra, há duas, três famílias.
O que se tem é uma ordem de grandeza.  Estima-se que em torno de 1 milhão de pessoas foram atingidas.  A própria professora Miriam aponta que nos próximos dez anos poderão ser atingidas mais de cem mil pessoas.  Mas não existe um número exato.
Acreditamos que esse número será muito superior.  Só em Belo Monte serão mais de 20 mil pessoas.
Amazonia.org.br – Quais os principais impactos sentidos pelos atingidos?
Costa – O primeiro impacto é você sentir que a sua terra vai ser inundada e que você vai ter que se retirar dela: é saber que sua família terá que sair da própria casa, que será inundada.
Pior do que isso é você ter uma declaração de um diretor de barragem, como a de Campos Novos, que disse: “ser atingido é uma coisa, ter direito é outra”.  Isso quer dizer, você será expulso, mas não pode reclamar os seus direitos, que você, a princípio, não tem nenhum.
São vários problemas sérios, de violação de direitos, deste modelo que prevê que a energia e a água só servem para o interesse das grandes empresas, que querem ganhar com isso a qualquer custo, explorando não só as pessoas que foram expulsas, mas também os consumidores, ao cobrar taxas abusivas de energia elétrica – já que somos uma das matrizes energéticas mais baratas e uma das taxas mais caras do mundo.
Amazonia.org.br – Vocês têm uma dimensão dos impactos sofridos pelas mulheres atingidas por barragens?
Costa - Recentemente, estamos estudando isso com mais propriedade.  Todos os estudos apontam que o impacto, a consequência das barragens, é muito mais sério para as mulheres, por várias razões: a mulher é a que tem que se preocupar, principalmente na região rural, com os filhos, com sua propriedade.  Elas muitas vezes não são respeitadas, porque a visão patrimonialista que as empresas possuem só respeita os “chefes de família”.  A mulher é colocada em uma posição subalterna e, além disso, quando as obras são construídas, o processo de prostituição e a violência contra as mulheres é muito grande em todos os lugares.
Não tenho dúvida nenhuma que o impacto sobre a vida e o direito das mulheres atingidas é muito maior.  Eu diria que elas sofrem duas vezes no processo de construção de barragens.
Amazonia.org.br – Como está a situação dos atingidos por barragens que vivem na região amazônica?
Costa - Eu diria que, na Amazônia, temos observado que o drama dos atingidos é maior.  A vinculação dos atingidos com o rio é maior.  O rio é tudo na Amazônia, é meio de transporte, é alimento.  Em outras regiões brasileiras, a vinculação da população com a terra tem esse caráter, e na Amazônia com o rio é muito forte.  O impacto das construções nas populações ribeirinhas na Amazônia ganha um caráter mais dramático.
Historicamente, a violação dos direitos das populações na Amazônia foi muito maior. O caso de Tucuruí (PA) é emblemático.  As populações sofreram todo o tipo de violência: fraude, uso de veneno para matar a floresta, proliferação de mosquito, não reconhecimento de direitos das famílias que foram atingidas e que até hoje lutam por seus direitos.
Outro exemplo é a usina de Balbina (AM), que inundou uma imensa área para uma mínima produção de energia e até hoje, quando há enchente, alaga toda a região.
Esse foco de construção, nos rios Xingu, Tapajós, Madeira, preocupa de forma muito grande toda a direção do MAB e entidades que nos acompanham.
Amazonia.org.br – Como o MAB se posiciona com relação à usina de Belo Monte?
Costa - Estamos lutando e nesta semana teremos audiência em Brasília com os ministérios para que o governo brasileiro reveja essa obra e não a construa.  Esta é a nossa posição.  Para nós é um absurdo a construção dessa obra que terá tantos impactos, tantas dúvidas, apenas para beneficiar as grandes multinacionais.
A posição do MAB é inequívoca: condenamos a obra.  Ela não deveria ser construída neste momento.  É preciso haver um debate nacional sobre a questão e implantação de novas alternativas para a área energética brasileira.
Amazonia.org.br – Quais são as prioridades do MAB daqui para frente?
Costa - Continuar na luta por um novo projeto energético popular, que contemple o desenvolvimento do país, com ampla distribuição da renda para todos os brasileiros; a luta pelos direitos dos atingidos por barragens, inclusive o direito de dizer “não” às obras e a luta para que toda a injustiça praticada contra os atingidos tenha alguma forma de reparação.
*Publicado originalmente no site Amazônia.org.

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