“Os políticos encobrem os conflitos da água como se fossem religiosos e étnicos”. Entrevista com a ativista Vandana Shiva

Quinta, 14 de agosto de 2014


“Em abril de 2011 a ONU adotou uma resolução sobre a água como um direito humano. Mesmo com toda a ganância das multinacionais, a energia democrática dos movimentos sociais também está crescendo e desafiando a privatização da água”. É o que aborda Vandana Shiva, física e ativista defensora do meio ambiente e dos direitos das mulheres, nascida na Índia. O jornal britânico The Guardian a definiu como uma das cientistas de maior destaque e mais promissoras do mundo. Em seu livro “As guerras da água”, Shiva destaca que este recurso é um direito humano fundamental, o qual não pode ser tratado como uma mercadoria. No mundo, 768 milhões de pessoas não têm acesso à água potável.
A entrevista é de Gabriel Díaz, publicada por Diário.es, 07-08-2014. A tradução é do Cepat.
Fonte: http://goo.gl/3UcisX
Eis a entrevista.
Que importância a água tem para a vida humana, para as comunidas e a natureza? Que importância tem para você e para sua cultura?
A água é o próprio sangue da vida. Compõe 70% do planeta, 70% das plantas, 70% do nosso corpo é água. Sem água não há vida. A água circula através de todas as espécies e pelo ciclo hidrológico, que conecta a todos em uma comunidade. É a comunidade da água.
Eu nasci em Himalaya e cresci na região que é a fonte do Ganges. O movimento Chipko, ao qual me uni há uma década, é um movimento de mulheres para proteger o bosque e a água. Durante 10 anos estamos construindo movimentos para evitar a privatização das águas do Ganges. Nosso lema é “Nossa mãe Ganges não está à venda”. Detivemo-los.
Vários analistas internacionais assinalam que o século XXI será marcado pelas guerras da água.
As guerras pela água já estão acontecendo. Os recursos hídricos diminuem, a demanda por água aumenta. Os meios de comunicação e os políticos encobrem os conflitos da água e os apresentam como se fossem religiosos e étnicos. Isso facilita a divisão e as políticas de governo. Se os conflitos da água fossem tratados como conflitos pela água, as elites se veriam obrigadas a abordar a justiça da água, a democracia da água e a paz da água.
Em seu livro “As guerras da água”, você ressalta a importância de conseguir uma democracia real da água. Poderia explicar os princípios fundamentais desta ideia?
No núcleo da solução do mercado para a contaminação está a suposição de que a água existe em quantidade ilimitada. A ideia de que os mercados podem atenuar a contaminação facilitando um aumento da alocação não leva em conta que o desvio de água para uma área produz a escassez da mesma em outros lugares. Em contraste com as teorias das empresas que promovem uma solução de mercado para a contaminação, as organizações de base pedem soluções políticas e ecológicas.
As comunidades que lutam contra a contaminação industrial propuseram um projeto de lei sobre a Comunidade de Direitos Ambientais, que inclui os direitos para “limpar” a indústria, a segurança frente à exposição nociva, a prevenção, o conhecimento, a participação, a proteção e a observação; uma indenização e a limpeza. Todos estes direitos são elementos básicos em uma democracia da água, na qual se protege o direito à água potável para todos os cidadãos. Os mercados não podem garantir nenhum destes direitos.
O livro também insiste no negócio gigante que a venda de água engarrafada representa.
Uma mulher chamada Mylamma iniciou um movimento contra um gigante como a Coca-Cola, na região de Plachimada e , junto a ela, uma pequena aldeia de Keral conseguiu fechar a fábrica. A fábrica em Plachimada foi encomendada em março de 2000, para produzir 1.224.000 garrafas de produtos da Coca-Cola por dia e uma licença condicional para instalar uma bomba de água com motor. Contudo, a companhia começou a extrair ilegalmente milhões de litros de água limpa. Começaram a extrair 1,5 milhões de litros por dia. O nível da água começou a cair e a instalação indiscriminada de poços para aproveitar a água subterrânea teve graves consequências para os cultivos. Como resultado houve uma notificação contra a empresa e sua licença foi cancelada. Trataram de subornar o presidente do panchayat (o conselho comunitário), mas não tiveram êxito. Não apenas o roubo da água, mas também a contaminação do ambiente e as áreas próximas pelo derramamento de resíduos, que estava causando um grave perigo à saúde.
Como resultado destes despejos em poços, sempre de água potável, as instalações agrícolas secaram. O médico distrital informou que a água era imprópria para beber. As mulheres de Plachimada não iriam permitir esta hidro-pirataria e teve início um protesto nas portas da Coca-Cola e o lançamento de um ultimato aos mesmos. O litígio do interesse público foi apresentado por um dos panchayats contra a Coca-Cola no Tribunal Superior de Kerala, e o Tribunal também apoiou a população. Assim a juiza Balakrishan Nair ordenou que a Coca-Cola detesse a pirataria de água de Plachimada.
Você sita exemplos de como nos grandes projetos hidráulicos, as alterações do curso dos rios ou construção de barragens geralmente têm consequências irreversíveis para as comunidades.
Os projetos nos vales dos rios são geralmente considerados a solução para as necessidades da água para a agricultura, o controle das inundações e a atenuação da seca. Nas últimas três décadas, a Índia tem sido testemunha da construção de aproximadamente 1.554 represas. Entre 1951 e 1980, o governo gastou 1,5 bilhões de dólares em barragens de irrigação de grande ou médio prazo. Todavia, o retorno deste investimento tem sido muito menor que o previsto. Nas terras irrigadas, onde deveriam ter sido produzidas pelo menos cinco toneladas de grão por hectare, manteve-se o 1,27 tonelada por hectare.
As perdas anuais devido à inesperada baixa de disponibilidade de água, um assoreamento intenso, redução da capacidade de armazenamento e alagamentos, totalizam agora 89 milhões dólares. A construção de represas em dois dos rios mais sagrados da Índia, o Ganges e o Narmada, gerou um veemente protesto das mulheres, dos agricultores e das comunidades cujas vidas, e modos de subsistência, foram interrompidos, além de terem seus lugares sagrados ameaçados. As pessoas de Narmada Valley não somente resistem ao deslocamento causado pelas represas de Sardar Sarovar e Narmada, mas também estão travando uma guerra contra a destruição de civilizações inteiras.
Quais são as chaves para o desenvolvimento de projetos que combinem os avanços tecnológicos e o cuidado responsável do meio ambiente?
Para garantir a sustentabilidade e a equidade na gestão da água e o uso da água, dois indicadores são de vital importância: como afeta o ciclo hidrológico, e de que maneira impacta na água das pessoas. Se estes critérios são levados em conta podemos garantir a sustentabilidade no uso da água e a equidade e a democracia na gestão da água. Durante as duas últimas décadas, os movimentos pela democracia da água aumentaram e têm desafiado a ideia de que a água é uma mercadoria, assim como as políticas de privatização da água.
Em Nova Deli deteve-se a privatização do abastecimento da água da cidade mediante a Aliança Cidadã para a Democracia da Água. Na Itália, em um referendo, os cidadãos votaram para a democracia da água em junho de 2011. Em abril de 2011 a ONU adotou uma resolução sobre a água como um direito humano. Mesmo com toda a ganância das multinacionais, a energia democrática dos movimentos sociais também está crescendo e desafiando a privatização da água.
Então muita gente está reagindo frente às políticas que degradam a natureza e a forma de vida de muitas comunidades.
Desde o movimento 15M para ocupar Wall Street, a Primavera Árabe ao inverno russo, pessoas de todo o mundo estão se levantando contra a corrupção, a desonestidade e a falta de uma real democracia na classe política que, por sua vez, esta presa em uma camisa de força devido às políticas de privatização impostas pelas instituições financeiras. Nossas democracias passaram de ser do povo, para o povo e pelo povo, para ser das corporações, pelas corporações e elas corporações.
Princípios da “democracia da água”
1. Nós recebemos água livremente da natureza.
2. Todas as espécies e os ecossistemas têm direito a uma parte da água no planeta.
3. A vida está interligada através da água. Todos nós temos o dever de assegurar que as nossas ações não causem danos a outras espécies e outras pessoas.
4. A água deve ser acessível às necessidades de subsistência. A compra e venda com objetivo de lucro viola o nosso direito inerente.
5. A água é limitada e pode acabar se não for usada de forma sustentável.
6. Todo homem tem o dever de conservar a água e a sustentabilidade do uso da água, dentro dos limites ecológicos e justos.
7. A água não é uma invenção humana e não tem fronteiras. Ela é por natureza um bem comum. Ela não pode ser uma posse como propriedade privada e vendida como uma mercadoria.
8. Ninguém tem o direito de abusar, desperdiçar, jogar lixo ou poluir os sistemas de água.
9. A água é intrinsecamente diferente de outros recursos e seus produtores. Ela não pode ser tratada como uma mercadoria.

Crise da água cai nas agências reguladoras


Sistema Cantareira

Antaq acusa ANA de omissão na função de equilibrar uso da água que, por sua vez, diz que a primeira nunca apresentou uma solução.
A escassez de água na Região Sudeste começou a causar fissuras dentro do governo federal. A crise, que até agora era tratada como um problema restrito ao governo de São Paulo, sendo observada à distância pela União, acabou desembocando em troca de acusações e desentendimentos entre as agências reguladoras. 
A Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq), responsável pela administração do transporte fluvial no País, acusa a Agência Nacional de Águas (ANA) de ser omissa em sua função de garantir o equilíbrio no uso da água para diferentes propósitos: abastecimento, geração de energia e transporte de carga.
A Antaq também disparou críticas contra o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), acusado de privilegiar apenas o plano de geração de energia e ignorar o resto.Hidrovia Tiête-Paraná, que era usada para receber barcaças com cinco mil toneladas de grãos, serve agora para diversão de pescadoresChico Siqueira/Estadão“A ANA não faz o básico, que é garantir o uso múltiplo da água.
Nem a ANA nem o ONS respeitam essa regra. Não somos consultados em nada, quem decide tudo são eles. Ficamos sabendo das decisões de vazão do Tietê-Paraná na última hora.
Todos simplesmente ignoram a navegação”, disse ao Estado o diretor da Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq), Adalberto Tokarski.
 O diretor da ANA, Vicente Andreu, reagiu às acusações. “A Antaq reclama, mas a verdade é que eles nunca apresentaram uma solução. Uso múltiplo da água não significa uso equivalente.
O departamento hidroviário de São Paulo apresentou duas propostas para o ONS para resolver o problema. A Antaq nunca apresentou uma proposta”, afirmou.O ONS afirma que as decisões sobre a vazão dos rios são técnicas e decididas pelos membros do Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico, ligado ao Ministério de Minas e Energia.Rusgas.
 O clima na Antaq é de indignação. As rusgas entre as agências reguladoras começaram a surgir em maio, com a redução de vazão de água nas hidrelétricas do sistema Tietê-Paraná.
A medida afetou diretamente o tráfego de barcaças na hidrovia, que é a mais movimentada do País. Há quase um mês, as operações foram completamente paralisadas.
 O diretor da agência, Adalberto Tokarski, fez um levantamento sobre o reflexo da retenção de água na Tietê-Paraná para a movimentação de carga. “Entre maio e novembro do ano passado, 2 milhões de toneladas de soja e milho passaram por essa hidrovia.
Neste ano, se ela permanecer intrafegável nesse período, serão colocados 45 mil caminhões a mais nas estradas da região, para causar, mais uma vez, aquelas filas imensas nos portos do Sudeste.
Isso é um absurdo.”Questionada sobre o assunto, a ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, saiu em defesa da ANA. Em entrevista ao Estado, disse que a Antaq não propõe soluções para a situação.
“A ANA tem uma proposta clara sobre hidrovia, e é verdade que o ONS tem uma certa resistência a isso.
Mas a Antaq nunca soube discutir esse assunto. Ela não está preparada para esse debate político”, disse Izabella. “Por que a Antaq não constrói o diálogo? Por que não procura o seu ministro para discutir o tema?
Se a situação está no limite, em vez de ficar acusando, o que ela deveria fazer é provocar o debate e tentar construir o marco regulatório que viabilize isso.”
Para a diretoria da Antaq, as suas propostas são constantemente rejeitadas. Adalberto Tokarski diz que os problemas de navegação também começaram a afetar operações no rio São Francisco, onde empresas estão paralisando o transporte de carga e demitindo funcionários.
A queixa foi levada à Comissão de Infraestrutura do Senado.
“Ninguém está dizendo que não se deve gerar energia ou abastecer a população com água.
O que está em questão é a forma de gestão.
O uso da água é mal feito”, disse o diretor da agência.

Aldeia do Povo Indígena Fulni-ô

Foto de Almacks Luiz - Centro da Aldeia Fulni-ô

A CCR – Câmara Consultiva Regional do Submédio São Francisco, realizou na cidade de Águas Belas – PE a sua IV Reunião Ordinária, no dia 26 na Câmara Municipal de Vereadores da cidade, que tem em sua composição dois vereadores índios do povo Fulni-ô, o vereador Dezinho e Max. No dia 27 ficou reservado para uma visita que foi feita à Aldeia.

A cidade de Águas Belas possui hoje 42.008 habitantes e tem uma área de 885,986 M2 (www.cidades.ibge.gov.br), tendo mais ou menos 7 mil indígenas do povo Fulni-ô que recebeu o título de suas terras em 1705 de Duarte Coelho, donatário da Província do Pernambuco. No período da Guerra do Paraguai foram mandados 180 índios para a linha de guerra, mas não retornaram às suas terras. Como compensação o governo do Pernambuco fez a demarcação de suas terras, dando 6 mil Km2 (36 mil Km2). Hoje os índios vivem pressionados pelo avanço da cidade, sitiados em menos de 10 mil km2.
A cidade foi construída literalmente em cima de terras da Aldeia e em negociação com o executivo este repassa o IPTU das edificações construídas em suas terras em prol dos índios.

O povo indígena brasileiro vive uma das maiores crises de sua história. Enquanto o presidente FHC demarcou 16 terras indígenas, Lula demarcou 05 e a presidente Dilma, até o momento, não demarcou nenhuma terra indígena em seus 4 anos de governo, sem contar que investe na PEC 215 que tenta retirar os direitos garantidos pela Lei 6.001/73 (Estatuto do Índio) determinados pela Constituição de 1988, com o objetivo de enfraquece-los para beneficiar o agronegócio e a mineração.

O Povo Indígena Fulni-ô é um dos poucos povos indígenas que mantém a sua língua materna o (ITHÊ), com um quadro de professores que ensina aos estudantes na Escola Indígena Marechal Rondon, construída em 1929, procurando manter sua tradição viva.
Conheça o Povo Indígena Funil-ô que tem como árvore sagrada o Juazeiro.

Com 'volume morto', nível do Cantareira vai a 26,7%

:  Nível de principal reservatório de água paulista teve um aumento de 18,5 pontos percentuais no que foi registrado ontem, 8,2%, o menor de sua história; registro aconteceu um dia após o início da captação da reserva técnica, o chamado 'volume morto'; agora, estimativa da Sabesp é que a água do manancial seja suficiente para abastecer a região metropolitana de São Paulo até 2015; "Passaremos o período da seca e chegaremos nas próximas águas", garantiu o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin
16 de Maio de 2014 às 15:01

Elaine Patricia Cruz - Repórter da Agência Brasil
O nível de água do Sistema Cantareira alcançou 26,7%, um aumento de 18,5 pontos percentuais no que foi registrado ontem, 8,2%, o menor nível de sua história. O nível foi alcançado hoje (16) um dia após o início da captação da reserva técnica, ou volume morto. O Sistema Cantareira responde pelo abastecimento de água para 9 milhões de habitantes da região metropolitana de São Paulo.
O governo estadual e a Companhia de Saneamento do Estado de São Paulo (Sabesp) iniciaram ontem (15) a captação de água da reserva técnica da Represa Jaguari/Jacareí. A reserva técnica é o volume de água das represas que fica abaixo da cota mínima de captação.
A água retirada da reserva técnica é levada para a Estação de Tratamento de Água Guaraú, na zona norte de São Paulo. O Sistema Cantareira recebeu 182,5 bilhões de litros de água, o que fez com que o nível subisse hoje.
A estimativa da Sabesp é que o aumento do nível de água seja suficiente para abastecer a região metropolitana de São Paulo até 2015. Se começar a chover com regularidade a captação do volume morto será suspensa.

Laboratório francês aponta contaminação ambiental em mina de urânio na Bahia


O laboratório francês da Comissão de Pesquisa e Informação Independente sobre Radioatividade (CRIIRAD), especialista em detectar radioatividade no meio ambiente,com qualificação técnica certificada pelo Ministério da Saúde da França, identificou elevada taxa de radiação gama no ar e contaminação do solo por metais radiotóxicos no entorno da mineração de urânio das Indústrias Nucleares do Brasil (INB), que abastece as usinas atômicas de Angra dos Reis (RJ). A mina fica no distrito de Maniaçu,em Caetité, a 750 Km de Salvador, capital da Bahia.

Os efeitos da radiação ionizante sobre o meio ambiente e na saúde da população vem sendo pesquisados desde 2011, numa parceria técnico-científica do CRIIRAD(http://www.criirad.org/) e Fundação Osvaldo Cruz (Fiocruz-RJ), com apoio da organização alemã Médico Internacional. Os dados preliminares desta investigação estão no relatório “Justiça Ambiental e Mineração de Urânio em Caetité: Avaliação Crítica da Gestão Ambiental e dos Impactos à Saúde da População”, que foi apresentado em recente debate público (11.04.2014) promovido pela Comissão Paroquial de Meio Ambiente de Caetité, no auditório da Universidade do Estado da Bahia.

MONITORAMENTO INEFICAZ – O estudo do CRIIRAD traz resultados de análise de amostras coletadas no entorno da mina, em 2012, avalia o relatório de monitoramento ambiental da INB (RT-URA-05-14), referente a 2011/2012, e  aponta áreas contaminadas.O CRIIRAD observou falhas e sugeriu correções para as deficiências do monitoramento da INB, que traz indicadores de medição de urânio e radônio, no ar, e de urânio, rádio-226 e chumbo-210, em amostras de água subterrânea. A INB analisa apenas três substâncias radioativas (urânio, rádio e chumbo). Não monitora as cadeias de decaimento do urânio-238 e urânio-235, que contêm mais de 20 substâncias radioativas. O estudo do CRIIRAD traz resultados de análise de amostras coletadas no entorno da mina, em 2012, avalia o relatório de monitoramento ambiental da INB (RT-URA-05-14), referente a 2011/2012, e  aponta áreas contaminadas. O CRIIRAD observou falhas e sugeriu correções para as deficiências do monitoramento da INB, que traz indicadores de medição de urânio e radônio, no ar, e de urânio, rádio-226 e chumbo-210, em amostras de água subterrânea. 
A INB analisa apenas três substâncias radioativas (urânio, rádio e chumbo). Não monitora as cadeias de decaimento do urânio-238 e urânio-235, que contêm mais de 20 substâncias radioativas.
A empresa também não registra o fator de equilíbrio entre radônio e seus produtos de decaimento, cuja radiotoxicidade é maior do que a do urânio, impossibilitando uma avaliação precisa das doses recebidas pela população que vive perto da mina. A quantidade de postos de monitoramento de radônio livre no ar, no ambiente imediato da mina é muito limitada. Não há resultados para a radiação gama no ambiente, a contaminação do solo, da cadeia alimentar e das águas superficiais e sedimentos. Para o físico nuclear Bruno Chareyron, diretor do Laboratório CRIIRAD, o monitoramento da INB é ineficaz e “sem os resultados de um programa abrangente é impossível avaliar os reais impactos da exploração de urânio na região”.

Entre outras recomendações, o CRIIRADalertou para a necessidade de monitorar a atividade do radônio dissolvido (que pode ser bastante elevada em águas subterrâneas e fornecer dose de radioatividade para o consumidor muito maior do que a emitida pelo urânio) e a atividade do polônio-210 (associado ao urânio-238 este metal está entre as substâncias mais radiotóxicas quando ingerido).
REJEITOS RADIOATIVOS – Dando curso à pesquisa, este ano o CRIIRAD coletou novas amostras de solo e água e tomou conhecimento que em 2013, a INB realizou prospecção intensiva principalmente na comunidade de Gameleira (cerca de 2 km da mina, tendo alguns furos mais de 70 metros de profundidade) e em Juazeiro. Nos dias 9 e 10.04.2014, nessas comunidades foram medidas doses de radiação gama 2,5 a 10 vezes maior que o valor de fundo, registrado em locais não afetados pela perfuração. A empresa também não avalia outros impactos da perfuração, como a contaminação do ar por radônio; a quantidade de partículas radioativas inaladas e ingeridas pela população e a possível contaminação da água subterrânea, pela mudança no regime de circulação da água gerada pela prospecção. Cabe registrar que nos dois dias de trabalho em campo a equipe da pesquisa foi “monitorada” por escoltas de segurança da empresa.

Contaminação por metais pesados, de longa duração (75.000 anos para o tório-230 e 1.600 para o rádio-226), associados a rejeitos radioativos da mineração foi medida no vale do Riacho da Vaca. Considerando a atividade do minério (tório-230 – atividade de 1.000 Bq/kg, rádio-226 – atividade de 2.430 Bq/kg e chumbo-210 – atividade de 1.870 Bq/kg) a atividade total de alguns rejeitos é superior a 300.000 Bq/kg. Medições a um metro acima do solo na borda superior do vale subiram de cerca de 200 c/s (contagem por segundo) para 700 c/s no centro da depressão. O CRIIRAD recomenda a descontaminação desta área. Além dos rejeitos, a mineração gera enorme quantidade de poeira radioativa. 

Avaliando apenas o urânio-238, com um teor de cerca de 0,3%, a radioatividade do minério é cerca de 37.500 Bq/kg. Mas quando se considera todos os produtos do urânio (como o tório-230, o rádio-226, radônio-222, chumbo-210, entre outros) a radioatividade do minério alcança mais de 500.000 Bq/kg. Dados da INB mostram que em 2011/2012, a concentração média de urânio no ar a favor dos ventos na mina foi 6 vezes acima do valor registrado na direção contrária aos ventos predominantes.
O CRIIRAD não pode entrar na área da empresa, mas foi informada que a proteção da saúde dos trabalhadores não é prioridade na INB. Tambores cheios de concentrado de urânio ficam acumulados perto da cabine dos vigias, que recebem doses consideráveis de radiação gama. Na área 170, onde o urânio é concentrado e embalado em tambores, material radioativo é lançado no ar. Atingindo uma pureza de 80% pode-se calcular que a concentração do urânio-238 é superior a 10.000.000 Bq/kg. 

Como o pó se espalha no ar, o risco de contaminação por ingestão e inalação é alto. A situação é muito grave, pois como avalia o Comitê Científico das Nações Unidas sobre os Efeitos da Radiação Atômica (UNSCEAR)entre as atividades da cadeia de produção da energia nuclear, tirandoos acidentes em reatores e bombas atômicas, é na extração e beneficiamento de urânio (elas ocorrem em Caetité) que trabalhadores e cidadãos podem receber as doses mais elevadas de radiação.

DANOS À SAÚDE - O cientista francês esteve em Caetité em 2012, iniciando uma colaboração com o trabalho de epidemiologia popular, “Pesquisa participativa de base comunitária sobre os problemas de saúde na área próxima à mina de urânio em Caetité, Bahia”, iniciado em 2011, sob a coordenação do pesquisador titular da FIocruz Marcelo Firpo, no âmbito do projeto internacional EJOLT (Organizações de Justiça Ambiental, Passivos e Comércio). Coordenado pela Universidade Autônoma de Barcelona (Espanha), o ELOLT (ejolt.org) estuda e apoia mobilizações por Justiça Ambiental em várias partes do mundo, como as relacionadas à mineração de urânio.
Esta não foi a primeira vez que um laboratório internacional apontou a contaminação que a INB vem promovendo em Caetité, e que estava prevista no Estudo de Impacto Ambiental da mineração. Em 2008, o Greenpeace contratou um laboratório da Inglaterra que comprovou a contaminação da água em Maniaçu, fato depois confirmado pelo então Instituto de Águas do Governo da Bahia..

Na Europa, os laboratórios que avaliam contaminação radioativa não se reportam a órgãos de regulação do setor nuclear, como aqui no Brasil, onde são subordinados a Comissão Nacional de Energia Nuclear. O CRIIRAD atua independente do governo e de empresas poluidoras, em defesa do direito à radioproteção e à informação confiável sobre a questão nuclear, em especial os malefícios da radiação ionizante. A expectativa agora, é que as autoridades dos três poderes levem a sério as recomendações feitas e adotem as providências que lhes compete para minorar os prejuízos que a exploração de urânio vem causando aos trabalhadores e populações da região.

Zoraide Vilasboas
Coordenação de Comunicação da 
ASSOCIAÇÃO MOVIMENTO PAULO JACKSON - Ética,Justiça,Cidadania

O MASSACRE DOS FLAGELADOS DO CEARÁ



Texto de Pedro Molinas.

A barragem do Patu teve suas obras iniciadas no ano de 1919 e foram paralisadas em 1924. Nesse período foram construídos os casarões da barragem, a vila dos ingleses como é conhecida, pois foram edificados por uma empresa inglesa. A barragem do Patu, que serviria para amenizar a problemática da seca, foi palco da maior tragédia da região. Na grande seca de 1932, milhares de sertanejos foram atraídos para Senador Pompeu, com a promessa de trabalho e comida. A mesma barragem que deveria armazenar a água vida, motivou a instauração do campo de concentração no local. Mais de 16 mil pessoas foram confinadas em uma área de pouco mais de 3 km quadrados, milhares morreram, vítimas de doenças, maus tratos, higiene precária e fome. Tudo planejado e patrocinado pelo Estado, que deveria ter garantido o mínimo de dignidade para os sertanejos, que tiverem seus direitos humanos violados pelo próprio Estado.

Além e de Senador Pompeu, outros sete municípios também tiveram campos de concentração de flagelados, foram eles: Ipu, Cariús, Quixadá, Quixeramobim, Crato e Fortaleza. Dos sete campos de concentração de flagelados que foram implantados pelo governo no ano de 1932, o único que mantém viva a história é o município de Senador Pompeu, através do patrimônio material, os casarões da barragem, o local foi usado para aprisionar os flagelados da seca e o patrimônio imaterial, que é a devoção popular pelas almas da barragem e a tradicional caminhada da seca.

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